Drink The Sea encerra ciclo em São Paulo com apresentação expansiva e cheia de encontros inesperados.
A passagem do Drink The Sea por São Paulo, na Casa Rockambole, teve gosto de rito de encerramento — mas daqueles que não soam como fim, e sim como transição. Em uma noite densa, sensorial e marcada por surpresas, o projeto transformou o palco em um espaço de travessia sonora, onde cada faixa parecia abrir novos caminhos em vez de concluir uma jornada.
O pequeno atraso antes do início apenas intensificou a atmosfera de expectativa. Quando os primeiros acordes de “Shaking for the Snakes” finalmente ecoaram, ficou claro que o público estava prestes a mergulhar em algo mais profundo do que um show convencional. A apresentação seguiu com “Outside Again” e “Pour Your Glow On”, conduzindo a plateia por uma espécie de fluxo contínuo entre delicadeza e explosão, onde o tempo parecia se diluir.
Ao longo do set, composições como “Sacred Tree” e “Embers” revelaram o domínio do grupo em criar climas que oscilam entre o introspectivo e o grandioso. Não havia pressa — cada música respirava, crescia e se desdobrava como uma paisagem em constante mutação.
Um dos momentos mais carregados de significado veio com “Long Gone Day”, do Mad Season. A interpretação surgiu como homenagem a figuras essenciais como Mark Lanegan, Layne Staley e Chris Cornell, trazendo um silêncio respeitoso e quase palpável à casa.
Se a primeira metade do show foi marcada por uma imersão atmosférica, a reta final ganhou contornos mais diretos — e surpreendentes. A entrada de Nando Reis reposicionou o clima da noite, puxando o público para um território afetivo imediato. Em coro, a plateia acompanhou canções como “Relicário”, “Azul Febril” e “O Segundo Sol”, transformando o espaço em uma celebração coletiva.
Ao lado de Nando, também participaram Sebastião Reis e Fernando Nunes, ampliando ainda mais a dimensão colaborativa do encerramento. A sensação era de um palco aberto, onde diferentes trajetórias se encontravam sem hierarquia.
O repertório ainda reservou releituras que dialogaram com o universo do projeto, como “The One I Love”, do R.E.M., e “Hangin’ Tree”, do Queens of the Stone Age — escolhas que reforçaram a identidade híbrida e exploratória do Drink The Sea.
Mais do que um último show de turnê, a apresentação em São Paulo funcionou como uma síntese do que o projeto propõe: música como experiência expandida, construída tanto no som quanto na troca com o público. Sem apelar para fórmulas, o grupo encerra essa fase deixando a impressão de que ainda há muito território a ser explorado.

Setlist — Drink The Sea @ Casa Rockambole
(São Paulo, Brasil) 25/03/2026
Shaking for the Snakes
Saturn Calling
Outside Again
Pour Your Glow On
Sacred Tree
Bembe for Two
Sip of the Juice
Embers
Where We Belong
Paredes
House of Flowers
The Strangest Season
Spirit Away
Midnight Starlight
Mouth of the Whale
Aching Harbor
Long Gone Day (Mad Season cover)
Meteors
Butterfly
Rose Crested Sky
Sweet as a Nut
Land of Spirits
Tuareg Asteroid
Dois Réveillons (Nando Reis cover, com Nando Reis)
Azul Febril (com Nando Reis)
All Star (com Nando Reis)
Relicário (com Nando Reis)
O Segundo Sol (com Nando Reis)
The One I Love (R.E.M. cover)
Making a Cross (Desert Sessions cover)
Hangin’ Tree (Queens of the Stone Age cover)

