{"id":16018,"date":"2026-09-28T12:17:16","date_gmt":"2026-09-28T15:17:16","guid":{"rendered":"https:\/\/djsound.com.br\/?p=16018"},"modified":"2026-09-28T12:18:56","modified_gmt":"2026-09-28T15:18:56","slug":"dry-cleaning-no-palco-do-balaclava-fest-no-tokio-marine-hall","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/djsound.com.br\/?p=16018","title":{"rendered":"&#8220;Dry Cleaning&#8221; no palco do Balaclava Fest, no Tokio Marine Hall"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"has-text-color has-link-color wp-elements-1 wp-block-paragraph\" style=\"color:#ec0b43\"><strong><em>by Charlie Farewell<\/em><\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Dry Cleaning transforma o palco do Balaclava Fest em uma colis\u00e3o entre volume e spoken word<\/strong>.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O <strong>Dry Cleaning<\/strong> chegou ao palco do <strong>Balaclava Fest<\/strong>, no Tokio Marine Hall, em S\u00e3o Paulo, com uma proposta que, ao vivo, ganhou contornos ainda mais agressivos do que aqueles registrados em seus discos. O quarteto londrino optou por um arranjo pesado, com <strong>guitarras e baixo em volume bastante alto<\/strong>, criando uma parede sonora que colocou a se\u00e7\u00e3o instrumental no centro da apresenta\u00e7\u00e3o. O resultado foi intenso, f\u00edsico e, em v\u00e1rios momentos, deliberadamente sufocante.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">No centro desse turbilh\u00e3o estava <strong>Florence Shaw<\/strong>, cuja presen\u00e7a continua sendo uma das caracter\u00edsticas mais particulares do grupo. Em vez de assumir o papel convencional de uma vocalista de rock, Shaw trabalha com o <strong>spoken word<\/strong>, recitando frases, observa\u00e7\u00f5es e imagens com sua conhecida entona\u00e7\u00e3o seca, quase conversada. O problema, no entanto, \u00e9 que, em S\u00e3o Paulo, sua voz esteve <strong>baixa demais em boa parte do show<\/strong>.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A escolha de colocar os instrumentos t\u00e3o \u00e0 frente produziu um efeito curioso. Justamente aquilo que torna o Dry Cleaning imediatamente reconhec\u00edvel \u2014 a voz de Shaw, suas pausas, o ritmo das palavras e a maneira aparentemente desinteressada de transformar situa\u00e7\u00f5es banais em pequenas cenas absurdas \u2014 acabou sendo parcialmente encoberto pela banda. Em m\u00fasicas nas quais a voz deveria funcionar quase como mais um instrumento r\u00edtmico, era poss\u00edvel perceber o contorno das frases sem necessariamente captar todos os detalhes.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E isso \u00e9 particularmente significativo porque o equil\u00edbrio entre Shaw e os tr\u00eas m\u00fasicos sempre foi fundamental para a identidade do grupo. A imprensa especializada frequentemente destacou justamente esse contraste: de um lado, as guitarras, o baixo e a bateria construindo uma base tensa e expansiva; do outro, Shaw falando em um registro contido, como uma narradora deslocada no pr\u00f3prio ambiente. O Pitchfork, por exemplo, descreveu a combina\u00e7\u00e3o como um encontro entre instrumenta\u00e7\u00e3o intensa e as divaga\u00e7\u00f5es em spoken word da cantora.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">No palco paulistano, entretanto, esse contraste foi levado para uma esp\u00e9cie de extremo. <strong>Tom Dowse<\/strong>, na guitarra, e <strong>Lewis Maynard<\/strong>, no baixo, constru\u00edram uma massa sonora particularmente encorpada, enquanto <strong>Nick Buxton<\/strong> sustentou a apresenta\u00e7\u00e3o com uma bateria que ajudou a empurrar as m\u00fasicas para uma dimens\u00e3o mais pr\u00f3xima do rock pesado do que de uma interpreta\u00e7\u00e3o minimalista do repert\u00f3rio.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A op\u00e7\u00e3o funcionou em termos de impacto. Mesmo quando as palavras de Shaw se perdiam parcialmente na mixagem, a m\u00fasica mantinha uma for\u00e7a consider\u00e1vel. O p\u00fablico respondeu \u00e0 apresenta\u00e7\u00e3o, acompanhando os momentos mais conhecidos do repert\u00f3rio e recebendo com entusiasmo uma banda que construiu sua reputa\u00e7\u00e3o justamente por fugir das conven\u00e7\u00f5es do rock.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Formado em Londres no fim da d\u00e9cada de 2010, o Dry Cleaning surgiu quando Dowse, Maynard e Buxton come\u00e7aram a tocar juntos. Florence Shaw entrou posteriormente para completar a forma\u00e7\u00e3o, depois de ser convidada por Dowse, seu antigo colega. O grupo come\u00e7ou a chamar aten\u00e7\u00e3o com os EPs <strong>Sweet Princess<\/strong> e <strong>Boundary Road Snacks and Drinks<\/strong>, lan\u00e7ados em 2019, antes de chegar ao primeiro \u00e1lbum, <strong>New Long Leg<\/strong>, em 2021.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Produzido por <strong>John Parish<\/strong>, conhecido pelo trabalho com artistas como PJ Harvey, <em>New Long Leg<\/em> consolidou a f\u00f3rmula do grupo: guitarras angulares, baixo pulsante, bateria precisa e a voz de Shaw funcionando mais como narrativa do que como canto tradicional. O disco chegou ao quarto lugar da parada brit\u00e2nica e recebeu ampla aclama\u00e7\u00e3o cr\u00edtica.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A banda n\u00e3o permaneceu parada nessa f\u00f3rmula. <strong>Stumpwork<\/strong>, de 2022, ampliou o espectro sonoro do quarteto, aproximando o p\u00f3s-punk de elementos de indie rock, dream pop, psicodelia e momentos de maior experimenta\u00e7\u00e3o. A pr\u00f3pria interpreta\u00e7\u00e3o de Shaw tamb\u00e9m ganhou novas possibilidades, alternando spoken word, murm\u00farios, canto e pequenas varia\u00e7\u00f5es mel\u00f3dicas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em 2026, o grupo chegou a uma nova fase com <strong>Secret Love<\/strong>, seu terceiro \u00e1lbum de est\u00fadio, produzido por <strong>Cate Le Bon<\/strong>. O trabalho representa mais uma expans\u00e3o da linguagem do quarteto, mantendo a combina\u00e7\u00e3o entre observa\u00e7\u00f5es cotidianas, humor seco e uma sonoridade que pode oscilar entre o p\u00f3s-punk, o art rock e atmosferas mais experimentais.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O setlist apresentado em S\u00e3o Paulo foi particularmente interessante por n\u00e3o se limitar ao material mais conhecido de <em>New Long Leg<\/em>. A abertura com <strong>\u201cStrong Feelings\u201d<\/strong> imediatamente colocou o p\u00fablico dentro da est\u00e9tica do grupo, enquanto <strong>\u201cGary Ashby\u201d<\/strong>, <strong>\u201cBlood\u201d<\/strong>, <strong>\u201cHer Hippo\u201d<\/strong> e <strong>\u201cMagic of Meghan\u201d<\/strong> recuperaram diferentes momentos da trajet\u00f3ria da banda.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A sequ\u00eancia ganhou for\u00e7a com <strong>\u201cDon't Press Me\u201d<\/strong>, faixa de <em>Stumpwork<\/em> que j\u00e1 demonstrava como o grupo podia trabalhar com uma instrumenta\u00e7\u00e3o mais nervosa enquanto Shaw permanecia deliberadamente contida. Em seguida, <strong>\u201cMy Soul\/Half Pint\u201d<\/strong> e <strong>\u201cCruise Ship Designer\u201d<\/strong> refor\u00e7aram a conex\u00e3o entre as diferentes fases da banda.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A parte final foi especialmente forte. <strong>\u201cJoy\u201d<\/strong>, <strong>\u201cScratchcard Lanyard\u201d<\/strong>, <strong>\u201cThe Cute Things\u201d<\/strong> e <strong>\u201cHit My Head All Day\u201d<\/strong> colocaram lado a lado algumas das diferentes faces do Dry Cleaning: a estranheza cotidiana, o humor, o spoken word e o p\u00f3s-punk transformado em algo menos preocupado com f\u00f3rmulas tradicionais de composi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u201cScratchcard Lanyard\u201d, em particular, continua sendo uma pe\u00e7a fundamental para entender a banda. A faixa pertence a <em>New Long Leg<\/em>, \u00e1lbum no qual Shaw e seus companheiros encontraram uma maneira singular de transformar fragmentos do cotidiano em m\u00fasica. A cr\u00edtica do Pitchfork destacou justamente a maneira como a entona\u00e7\u00e3o da cantora \u2014 mais do que uma melodia convencional \u2014 d\u00e1 personalidade \u00e0s composi\u00e7\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" width=\"771\" height=\"1024\" src=\"https:\/\/djsound.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/IMG_20260928_121618-771x1024.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-16021\" srcset=\"https:\/\/djsound.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/IMG_20260928_121618-771x1024.jpg 771w, https:\/\/djsound.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/IMG_20260928_121618-226x300.jpg 226w, https:\/\/djsound.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/IMG_20260928_121618-768x1020.jpg 768w, https:\/\/djsound.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/IMG_20260928_121618-150x199.jpg 150w, https:\/\/djsound.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/IMG_20260928_121618-450x598.jpg 450w, https:\/\/djsound.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/IMG_20260928_121618.jpg 1080w\" sizes=\"(max-width: 771px) 100vw, 771px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Dry Cleaning<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O show do Dry Cleaning em S\u00e3o Paulo deixou uma impress\u00e3o paradoxal. <strong>A banda foi convincente justamente por sua pot\u00eancia, mas essa mesma pot\u00eancia prejudicou um dos elementos essenciais de sua identidade.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A escolha por guitarras e baixo muito altos criou uma apresenta\u00e7\u00e3o agressiva e bastante f\u00edsica, algo que funcionou para boa parte do p\u00fablico. Mas, em uma banda cuja singularidade depende tanto da palavra, perder trechos da voz de Florence Shaw significa perder parte importante da experi\u00eancia.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">N\u00e3o se trata de pedir ao Dry Cleaning que reproduza ao vivo exatamente a atmosfera dos discos. Pelo contr\u00e1rio: a for\u00e7a de uma apresenta\u00e7\u00e3o est\u00e1 tamb\u00e9m na capacidade de transformar as m\u00fasicas no palco. O problema foi de equil\u00edbrio. O arranjo poderia ser pesado, barulhento e agressivo sem necessariamente colocar o spoken word de Shaw t\u00e3o atr\u00e1s na mixagem.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ainda assim, o p\u00fablico recebeu a banda com entusiasmo. E talvez esse seja o ponto mais interessante da apresenta\u00e7\u00e3o: mesmo com uma mixagem que em diversos momentos dificultou a compreens\u00e3o das palavras, <strong>o Dry Cleaning conseguiu preservar a tens\u00e3o, o humor e a estranheza que fizeram do grupo uma das forma\u00e7\u00f5es mais particulares do p\u00f3s-punk brit\u00e2nico contempor\u00e2neo<\/strong>.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ao final, ficou a sensa\u00e7\u00e3o de ter visto uma banda que n\u00e3o est\u00e1 simplesmente reproduzindo sua f\u00f3rmula original. O Dry Cleaning est\u00e1 tornando seu som maior, mais pesado e mais f\u00edsico. Resta encontrar, ao vivo, o ponto exato em que esse crescimento instrumental n\u00e3o fa\u00e7a desaparecer justamente a voz singular que ajudou a tornar o grupo reconhec\u00edvel.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\"><strong>Setlist \u2014 Dry Cleaning<\/strong><\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Tokio Marine Hall \u2014 S\u00e3o Paulo, Brasil<\/strong><strong><br><\/strong><strong>26 de setembro de 2026<\/strong><\/p>\n\n\n\n<ol class=\"wp-block-list\">\n<li><strong>Strong Feelings<\/strong><\/li>\n\n\n\n<li><strong>Gary Ashby<\/strong><\/li>\n\n\n\n<li><strong>Blood<\/strong><\/li>\n\n\n\n<li><strong>Her Hippo<\/strong><\/li>\n\n\n\n<li><strong>Magic of Meghan<\/strong><\/li>\n\n\n\n<li><strong>Don't Press Me<\/strong><\/li>\n\n\n\n<li><strong>My Soul\/Half Pint<\/strong><\/li>\n\n\n\n<li><strong>Cruise Ship Designer<\/strong><\/li>\n\n\n\n<li><strong>Evil Evil Idiot<\/strong><\/li>\n\n\n\n<li><strong>Sliced by a Fingernail<\/strong><\/li>\n\n\n\n<li><strong>Let Me Grow and You'll See the Fruit<\/strong><\/li>\n\n\n\n<li><strong>Joy<\/strong><\/li>\n\n\n\n<li><strong>Scratchcard Lanyard<\/strong><\/li>\n\n\n\n<li><strong>The Cute Things<\/strong><\/li>\n\n\n\n<li><strong>Hit My Head All Day<\/strong><\/li>\n<\/ol>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>by Charlie Farewell Dry Cleaning transforma o palco do Balaclava Fest em uma colis\u00e3o entre volume e spoken word. 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