Desde os primeiros acordes de “All the Rage Back Home”, ficou claro que a banda estava afiada, conduzindo o público por um setlist que equilibrou fases distintas da carreira com precisão cirúrgica. Faixas como “No I in Threesome”, “C’mere” e “Take You on a Cruise” mantiveram o clima denso, enquanto “Rest My Chemistry” e “Obstacle 1” reforçaram a conexão visceral com os fãs mais antigos.
Paul Banks reafirmou seu papel como um dos frontmen mais singulares do rock contemporâneo. Contido, quase austero, ele conduz a banda sem excessos, deixando que sua voz grave e carregada de melancolia dite o tom da noite. Banks não precisa dominar o palco com gestos — sua força está justamente na economia, na forma como parece sempre guardar algo, criando um magnetismo silencioso. Em momentos como “My Desire” e “If You Really Love Nothing”, sua interpretação foi profunda, quase introspectiva, puxando o público para dentro de cada canção.
Um dos pontos mais marcantes da noite foi a presença do baterista Urian Hackney, que acompanha a banda nesta turnê sul-americana e nas datas do Lollapalooza. Substituindo temporariamente Sam Fogarino — afastado por questões de saúde após uma cirurgia na coluna em 2023 —, Hackney trouxe uma abordagem sólida e respeitosa, sem tentar reinventar o som, mas adicionando leve variação de dinâmica que deu novo fôlego a músicas como “Evil” e “Lights”.
No palco, a elegância característica do Interpol permaneceu intacta. Brad Truax ,na banda desde 2011, o conduz o baixo com linhas melódicas pulsantes, claramente influenciadas pelo estilo de Peter Hook: notas altas, repetitivas e hipnóticas, quase como uma segunda voz.
Já Daniel Kessler foi um espetáculo à parte. Seu jeito de tocar guitarra segue sendo uma assinatura única: cada riff parece menos uma imposição e mais um convite — como se chamasse o público para dançar dentro daquela atmosfera fria e noturna. Em faixas como “Narc” e “The Rover”, sua interação com o espaço sonoro foi quase coreográfica.
O meio do show trouxe momentos de intensidade crescente com “My Desire”, “Into the Night” e “See Out Loud” (apresentada ao vivo pela primeira ), antes de mergulhar na melancolia elegante de “If You Really Love Nothing” e “Not Even Jail”. “PDA” fechou o set principal com aquela catarse controlada que virou marca registrada da banda.
No encore, a trinca final — “Pioneer to the Falls”, “Roland” e “Slow Hands” — funcionou como um resumo perfeito da trajetória do Interpol: introspectivo, urgente e irresistivelmente dançante.
Foi uma noite em que o passado e o presente coexistiram com naturalidade. Mesmo diante de mudanças na formação, o Interpol mostrou que sua identidade permanece intacta — elegante, contida e absolutamente magnética.

Setlist – Interpol no Audio (São Paulo)
All the Rage Back Home
No I in Threesome
C’mere
Take You on a Cruise
Rest My Chemistry
Obstacle 1
My Desire
Into the Night
Narc
The Rover
See Out Loud (Live debut)
Evil
Lights
If You Really Love Nothing
Not Even Jail
PDA
Encore:
- Pioneer to the Falls
- Roland
- Slow Hands

