No dia 24/05, aconteceu algo que dificilmente pode ser tratado como “só mais uma festa”. O Bloco das Putas Vampiras, da lendária Putas Vampiras e Vampire Haus, entrou para a história recente da música eletrônica brasileira ao trazer Nina Kraviz para um contexto completamente fora do circuito óbvio: o morro do Vidigal, no Rio de Janeiro.
O bloco uniu cenas undergrounds do mundo todo, contando com o apoio da Lickndip, da Festawoble, da própria comunidade do Vidigal e do selo Trip Records da Nina “”.
Além de trazer estrelas do underground como Valesuchi, João Lágrima de Ouro, Bebela Dias, Vein, e a própria Putas Vampiras. Nina ainda trouxe com ela Vlademir Dubshykin do selo trip.
A festa provou que a verdadeira potência de uma cena eletrônica que ainda nasce da espontaneidade, da comunidade, da cultura LGBTQia+, da arte, da coragem, da ressignificação de espaços urbanos e do sonho raver.
Existe um peso simbólico enorme em ver uma artista como Nina Kraviz, constantemente escalada para os maiores festivais e clubs do mundo, escolher estar presente numa festa queer underground brasileira, construída na unha de forma independente, em uma locação improvável. Mais do que um booking internacional de prestígio, sua presença ali representou uma legitimação de uma cena que há anos resiste sem depender dos grandes centros institucionalizados da música eletrônica.
E talvez o detalhe mais importante de todos: Nina não apareceu apenas para cumprir horário e ir embora. Ela viveu a experiência até o final, atravessando a festa junto com o público, absorvendo a energia daquele espaço e reconhecendo a autenticidade do que estava acontecendo.
A potência do evento também esteve na sua construção estética e política. Criando um espaço multidisciplinar e experiência expressionista que funciona como um grande encontro cenografico, fotografico, e trazendo artistas como Radio TV Bilú, reforçando uma dimensão performática, marginal e artística que raramente acompanha os circuitos tradicionais por onde Nina costuma passar.
Não era apenas uma pista de dança: era um corpo espetáculo vivo composto grandes encontros vindos de diferentes realidades, estranhamento e liberdade. Um ambiente carregado de identidade própria, espontaneidade, impossível de reproduzir dentro dos formatos engessados do entretenimento eletrônico global.
Muito disso passa pela trajetória de Suzana Haddad, aka Putas Vampiras, que há anos constrói caminhos próprios e revolucionários dentro da cultura clubber brasileira, sendo uma voz queer referência mundialmente por apostar na autenticidade. Sua pesquisa musical sempre esteve ligada à ressignificação de espaços públicos, marginais ou pouco utilizados, e sua inspiração sempre veio de sua própria comunidade e “crazy dancers” transformando territórios em verdadeiros rituais coletivos de liberdade, empoderamento da comunidade queer, pertencimento e acessos, onde cada um pode ser o que é.
O Bloco das Putas Vampiras não surge do nada, ele é resultado de uma trajetória disruptiva que revolucionou o cenário paulistano nos últimos 13 anos, seguindo de referência para artistas e outros movimentos no Brasil e no mundo.
A Vampire Haus, selo mãe do bloco, tem um histórico de intervenção artística e ocupação de espaços públicos e galpões abandonados em São Paulo com mais de 100 edições gratuitas ou acessíveis para entre 1500 e 5000 pessoas. Insistindo numa visão de cena que virou uma subcultura coletiva, construída por mulheres, artistas, pessoas trans e pessoas LGBTQia+, com tatuagens na pele feitas por geral, músicas autorais, símbolos e falas coletivas, que não se curva ao formato pasteurizado do entretenimento eletrônico.
Nem no sentido musical nem na execução do formato festa. Hoje, o bloco tem sua comunidade expandidas para Berlim e palcos internacionais, sendo reconhecido mundialmente e atraindo sua legião de vampiras fanáticas.
Também existe uma importância profunda no fato de uma festa queer ocupar esse espaço com tamanha força. Em um país onde corpos dissidentes ainda enfrentam violência e apagamento constantes, ver uma celebração queer, experimental e radical acontecer dentro do Vidigal carrega uma dimensão simbólica gigantesca.
A ocupação não foi apenas geográfica, foi cultural. Foi sobre afirmar que a música eletrônica brasileira continua sendo construída por corpos dissidentes, por artistas independentes e por movimentos que entendem a pista como espaço de transformação artística, social, afetiva e política.
O que aconteceu no Vidigal é importante porque recoloca o underground brasileiro em um lugar de protagonismo internacional sem abrir mão da sua identidade. Não foi uma importação de Europa.
Foi o contrário: artistas globais entrando em contato com uma estética, uma energia e uma construção cultural que só existem aqui.
A festa mostrou que a cena clubber brasileira não precisa imitar ninguém para ser relevante. Sua força está justamente na mistura entre precariedade criativa, ocupação urbana, diversidade estética e intensidade humana.
Para a cultura eletrônica brasileira, isso representa um marco. Um lembrete de que o clubbing ainda pode ser imprevisível, político e vivo.
E de que os movimentos mais importantes da cena continuam surgindo longe dos grandes camarotes, nas mãos de quem insiste em criar novos mundos possíveis através da música.

