by Charlie Farewell
Shame mostra maturidade, intensidade e conexão com o público em apresentação arrebatadora no Cine Joia.
O retorno do Shame ao Brasil confirmou algo que já vinha sendo dito há algum tempo pelos fãs e pela crítica especializada: o grupo londrino deixou de ser apenas uma promessa da nova geração do pós-punk britânico para se tornar uma das melhores bandas ao vivo da atualidade.
Na noite de 20 de junho , o quinteto transformou o Cine Joia, em São Paulo, em um ambiente de tensão, catarse e celebração coletiva, conduzido por um dos frontmen mais carismáticos do rock contemporâneo, Charlie Steen.
A programação sofreu alterações logo no início da noite. A banda de abertura entrou no palco às 20h30, cerca de 45 minutos após o horário inicialmente previsto. Como consequência, o Shame iniciou sua apresentação às 21h30, meia hora depois do anunciado.
O atraso, no entanto, foi rapidamente esquecido assim que as luzes se apagaram e a banda surgiu no palco sob aplausos ensurdecedores.
Muito já foi escrito sobre a energia física de Charlie Steen. Seus movimentos imprevisíveis, a maneira como ocupa o palco e sua presença quase teatral são elementos conhecidos por quem acompanha a trajetória da banda.
O que chamou atenção desta vez foi a forma como o vocalista estabeleceu uma relação imediata com o público brasileiro.
Durante toda a apresentação, Steen se comunicou frequentemente em português.
Entre agradecimentos, brincadeiras e comentários espontâneos, o cantor demonstrou um interesse genuíno em interagir com a plateia. Em vez das tradicionais frases decoradas que muitos artistas utilizam em turnês internacionais, a comunicação parecia natural e sincera, criando uma atmosfera de proximidade rara para uma banda estrangeira.
Essa troca constante ajudou a transformar o show em algo maior do que uma simples execução de repertório.
A abertura com “Axis of Evil” deu o tom da noite. A música surgiu pesada, urgente e carregada da tensão característica do Shame.
Logo em seguida, “Concrete” e “Tasteless” levaram o público aos primeiros momentos de explosão coletiva. As rodas surgiram rapidamente na pista, enquanto a banda mantinha uma precisão impressionante mesmo nos momentos mais caóticos.
O interessante é que o grupo não se limitou à agressividade que marcou seus primeiros trabalhos. Ao longo do show, ficou evidente o quanto a banda expandiu suas possibilidades sonoras nos últimos anos.
Canções como “Quiet Life”, “Adderall” e “Water in the Well” revelaram um lado mais melódico e atmosférico, mostrando uma maturidade composicional que convive perfeitamente com a intensidade dos momentos mais explosivos.
Entre os diversos destaques do repertório, poucas músicas provocaram reação tão imediata quanto “Lampião”.
A faixa foi recebida com entusiasmo pelo público paulista e demonstrou como as composições mais recentes do grupo já conquistaram um espaço importante entre os fãs brasileiros.
Outro momento memorável veio com “Born in Luton”. A canção, uma das mais celebradas da carreira da banda, transformou o Cine Joia em um enorme coro coletivo, reforçando a forte conexão construída entre palco e plateia durante toda a apresentação.
Desde o lançamento de Songs of Praise em 2018, o Shame vem passando por um processo de evolução constante.
Ao vivo, essa transformação fica ainda mais evidente.
As guitarras de Sean Coyle-Smith e Eddie Green alternaram momentos de abrasão sonora e passagens mais sofisticadas, enquanto a cozinha formada por Josh Finerty e Charlie Forbes manteve uma base sólida e pulsante durante toda a noite.
O resultado foi um show que jamais perdeu intensidade, mas que também soube explorar nuances, dinâmicas e atmosferas diferentes.
A reta final trouxe uma sequência devastadora.
“One Rizla” provocou uma das maiores reações da noite, seguida por “Angie”, que adicionou um toque emocional antes da explosão definitiva de “Cutthroat”.
A última música transformou o Cine Joia em um cenário de euforia completa. Quando os acordes finais terminaram, a sensação era clara: o público havia assistido a uma banda no auge de sua forma.
Mais do que um grande show de pós-punk, a apresentação do Shame em São Paulo foi uma demonstração de como uma banda pode crescer artisticamente sem perder a urgência, a espontaneidade e a capacidade de estabelecer uma conexão real com quem está do outro lado do palco.
Poucos grupos da geração atual conseguem equilibrar esses elementos com tanta naturalidade.

Setlist
Shame – Cine Joia, São Paulo (20/06/2026)
Axis of Evil
Concrete
Tasteless
Cowards Around
Nothing Better
Fingers of Steel
Six Pack
Alphabet
Quiet Life
Lampião
Born in Luton
Adderall
Water in the Well
Spartak
Snow Day
One Rizla
Angie
Cutthroat

