by André Luiz Andreller
O segundo dia de Rock in Rio teve no New Dance Order um dos principais pontos de encontro para quem buscava música eletrônica em alta intensidade. A programação do palco foi marcada pela predominância do tech house, mas também abriu espaço para elementos de techno, bass, funk brasileiro, progressive e melodic house.
Ao longo da noite, a pista passou por diferentes momentos: da construção mais eclética de Victor Lou à sonoridade de grandes festivais apresentada por Volkoder, chegando à verdadeira aula de performance de James Hype. O palco também apresentou um encontro inédito entre Eli Iwasa e Camila Jun, em um B2B que combinou tech house e house music com um espetáculo audiovisual produzido especialmente para o festival.
Outro destaque do segundo dia foi o próprio sistema de som do New Dance Order. Em comparação com a estreia, o palco apresentou uma calibração mais precisa dos médios, proporcionando maior definição às linhas de baixo e aos elementos percussivos. O resultado foi um som mais equilibrado e potente, que valorizou especialmente as apresentações de maior intensidade.

Victor Lou aposta em hits, bass e brasilidade
A noite começou com Victor Lou, um dos nomes brasileiros que ajudaram a aproximar o tech house e o bass house de uma nova geração de público. Natural de Vitória, no Espírito Santo, o DJ e produtor ganhou projeção internacional com uma identidade marcada por graves fortes, drops de impacto e uma leitura bastante particular da música eletrônica brasileira.
No New Dance Order, Lou construiu um set baseado em grandes referências e versões especiais. Entre os destaques estiveram um remix em techno de “FE!N”, de Travis Scott, além de uma releitura de “Another Brick in the Wall”, do Pink Floyd, conduzida para uma atmosfera de techno com groove melódico.
O produtor também explorou a brasilidade em diferentes momentos da apresentação. Remixes com referências ao funk apareceram combinados a grooves eletrônicos e linhas de baixo agressivas, mantendo a pista em movimento constante. “Around”, de NO:IR e Haze, em uma versão com elementos de tech bass, e “Somebody That I Used to Know”, de Gotye, estiveram entre as faixas que ajudaram a construir o repertório.
“Last Night” foi um dos grandes momentos da apresentação. A estratégia de Victor Lou ficou clara: trabalhar com músicas reconhecíveis pelo público, mas apresentá-las sob uma estética mais pesada, transformando hits em ferramentas para uma pista de festival.
Eli Iwasa e Camila Jun fazem B2B inédito
Na sequência, Eli Iwasa e Camila Jun dividiram o comando da cabine em um B2B inédito. Duas artistas com trajetórias distintas na cena eletrônica brasileira se encontraram em uma apresentação construída principalmente sobre as vertentes do tech house, com passagens pela house music.
Eli Iwasa é uma das DJs mais respeitadas da música eletrônica brasileira, com uma carreira que atravessa diferentes gerações da cena e passagens por importantes clubes e festivais. Camila Jun, por sua vez, vem consolidando seu espaço com uma pesquisa musical que transita por diferentes vertentes da house e da música eletrônica contemporânea.
O encontro começou apostando em grooves dançantes e referências conhecidas do público. Um dos destaques foi os vocais em tech house de “Phunk Phenomena”, , assinada por Kashovski e ZARO, além de uma releitura de “Back to Life”, do Soul II Soul.
Bet You Know Me”, de Nico Rac,apareceu como um dos pontos altos do set, mantendo a pista em uma atmosfera mais envolvente.
A apresentação também ganhou uma camada visual própria. O show audiovisual foi desenvolvido exclusivamente para o Rock in Rio e utilizou uma estética de animação e desenho, criando uma identidade visual diferente das demais performances da noite.
Outro momento de destaque veio com “Strings of Life”, clássico associado à história da música eletrônica, apresentado em uma versão de tech house. A escolha funcionou como uma ponte entre a nostalgia dos grandes clássicos das pistas e a estética contemporânea do palco.
Volkoder mostra por que é nome de grandes festivais
Se Victor Lou abriu a noite estabelecendo uma conexão entre hits e bass, e Eli Iwasa e Camila Jun apostaram na construção do groove, Volkoder elevou a escala sonora do New Dance Order.
O brasileiro é hoje um dos principais representantes do tech house nacional no circuito internacional e chegou ao palco com uma sonoridade pensada para grandes públicos. Sua apresentação combinou a força do tech house com elementos de big room, produzindo um set de alta intensidade.
Logo no início, a colaboração com Vintage Culture, “Hands Up”, serviu para colocar a pista em movimento. Pouco depois, “Move Baby” reforçou a impressão de que a apresentação seria marcada por graves fortes, viradas precisas e grande pressão sonora.
Volkoder também apresentou diversas faixas autorais, mostrando uma identidade que se distancia de uma simples reprodução das fórmulas mais populares do gênero. As mixagens foram lineares, mas ganharam dinâmica por meio de transições intensas e mudanças constantes de energia.
Em determinados momentos, o produtor flertou com o melodic house. A entrada de “Opus”, de Eric Prydz, levou o público para uma atmosfera mais progressiva e melódica, criando uma mudança de clima dentro do set predominantemente voltado ao tech house.
O encerramento veio com “Unique Moment”, colaboração de Volkoder com CamelPhat. A escolha sintetizou a posição que o brasileiro vem ocupando na cena internacional: a de um produtor procurado por grandes nomes para construir colaborações que ultrapassam as fronteiras do mercado brasileiro.





James Hype transforma a cabine em espetáculo
Se a proposta do New Dance Order é apresentar diferentes formas de viver a música eletrônica, James Hype levou essa ideia ao extremo. O britânico entregou uma apresentação em que a técnica de DJ deixou de ser apenas uma ferramenta e passou a ser parte central do espetáculo.
Conhecido mundialmente por suas performances de alta complexidade e pelo uso intenso dos recursos das CDJs, James Hype chegou ao Rock in Rio com uma estrutura que chamou atenção. O setup contou com CDJs-3000, DJM-A9, DJS-1000 da Pioneer DJ para samples e uma mesa de efeitos Ignite.
A apresentação foi marcada por loops, acapellas, mudanças de tonalidade realizadas ao vivo, backspins e sobreposições de elementos em tempo real. Mais do que simplesmente tocar uma sequência de músicas, Hype construiu os mashups diante do público.
Logo na abertura, a acapella de “Crazy”, do Gnarls Barkley, foi utilizada de maneira a fazer a pista acreditar que estava ouvindo um remix pronto. Na realidade, a construção estava acontecendo naquele momento, diretamente na cabine.
O mesmo aconteceu com “Olha a Explosão”, de MC Kevinho. A faixa brasileira foi incorporada às bases de tech house, mostrando a capacidade do DJ de adaptar referências populares ao seu método de construção ao vivo.
Outro momento marcante veio com a acapella de “Music Is the Answer”, sobreposta a “Children”, de Robert Miles, criando uma combinação entre vocal conhecido e uma das melodias mais reconhecidas da história da música eletrônica.
A técnica voltou a ser protagonista com “Talk To You”, do ANOTR, utilizada em uma sequência que evidenciou o domínio de Hype sobre os equipamentos.
Em outro momento de grande reação do público, a acapella de “Love Is Gone”, de David Guetta, foi colocada sobre “On Off”, de Cirez D. A combinação mostrou novamente a capacidade do britânico de transformar elementos de músicas distintas em uma única construção.
Na reta final, “Pjanoo”, de Eric Prydz, apareceu como uma das faixas de despedida. A escolha encerrou uma apresentação em que a técnica esteve no centro da experiência e reforçou a reputação de James Hype como um dos grandes nomes da performance de DJ na atualidade.



Um palco cada vez mais definido
Ao final do segundo dia, o New Dance Order mostrou uma programação com identidade própria dentro do Rock in Rio. O tech house foi o fio condutor, mas os artistas encontraram diferentes maneiras de trabalhar o gênero.
Victor Lou explorou a força dos hits e a mistura com o funk e o bass. Eli Iwasa e Camila Jun trouxeram a experiência de um B2B inédito, acompanhado de uma proposta audiovisual própria. Volkoder apresentou uma sonoridade de grande escala, com características de tech house voltadas para festivais. E James Hype transformou a própria técnica de mixagem em espetáculo.
O resultado foi uma noite em que a pista não dependeu apenas dos grandes drops. O segundo dia mostrou diferentes possibilidades dentro da música eletrônica contemporânea — e consolidou o New Dance Order como um palco capaz de dialogar tanto com o público que busca dança e entretenimento quanto com quem acompanha de perto a cultura dos DJs e da produção musical.
clicks James Hype by @aneferreira

