by Mariela Gregori
Quando o caos floresce: uma noite dentro do universo psicodélico da elrow no [UNVRS]
Há festas em que você vai para ouvir música. Há outras em que você vai para dançar. E existem aquelas em que, por algumas horas, você simplesmente esquece que existe um lado de fora.
Foi assim que me senti no último sábado, ao atravessar novamente as portas do [UNVRS] para uma noite de elrow. Se na abertura da temporada a Mãe da Floresta de Bhūtarāh parecia nos observar de cima de seu reino ancestral, desta vez o convite era outro: entrar em um jardim onde o caos não precisava ser combatido. Ele simplesmente florescia.
Neo Kaos Garden.
E talvez não exista nome mais apropriado para explicar o que acontece quando a elrow transforma uma pista de dança em uma obra de arte viva.
A proposta desta versão 2.0, criada pelo artista espanhol Okuda San Miguel, é justamente romper a fronteira entre o real e o imaginário. O resultado é um universo de cores, formas geométricas, criaturas fantásticas, tecnologia e movimento que parece ter escapado de uma tela para ocupar cada centímetro do [UNVRS]. A própria elrow define o conceito como uma fusão entre arte, música e tecnologia — e, depois de vivê-lo, fica difícil pensar em três elementos separados.
Porque ali a música não acompanha o espetáculo.
Ela é parte dele.
Um jardim onde o caos tem ritmo

Desde os primeiros minutos, a sensação é de que alguma coisa está prestes a acontecer. As estruturas parecem ganhar vida, os visuais mudam constantemente e os elementos cênicos deixam de funcionar como simples decoração.
É como entrar dentro de um videoclipe que se recusa a terminar.
E esse talvez seja um dos grandes diferenciais da elrow: não existe um palco convencional para onde todos olham. Existe um universo inteiro acontecendo ao redor.
O [UNVRS], com suas dimensões monumentais e possibilidades tecnológicas, torna-se uma espécie de tela tridimensional. E o público, inevitavelmente, vira parte da pintura.
Naquela noite, as cores de Okuda pareciam conversar diretamente com a essência da elrow: exageradas, surreais, quase infantis em alguns momentos, mas carregadas de uma identidade artística muito particular. Criaturas geométricas, estruturas móveis e elementos digitais criavam a sensação de que estávamos dentro de uma espécie de jardim psicodélico onde a lógica havia decidido tirar férias.
E talvez seja justamente aí que esteja a magia.
Na elrow, ninguém precisa fazer sentido.
Quando o DJ deixa de ser apenas DJ

Mas seria injusto falar da noite apenas pela cenografia.
Porque, por mais gigantesco que seja o espetáculo visual, é a música que mantém esse organismo respirando.
O line-up deste sábado reuniu AAT, Ilario Alicante, Joris Voorn e Toni Varga, uma seleção que percorreu diferentes texturas dentro do universo house, tech house e techno que define a residência da elrow no [UNVRS].
E foi justamente essa diversidade que fez a noite funcionar tão bem.
AAT ajudou a construir o terreno para o que viria pela frente, preparando a pista para uma jornada que não dependia de uma única fórmula. Depois, Ilario Alicante trouxe sua conhecida intensidade, fazendo a energia da pista subir alguns degraus e mostrando como o techno pode coexistir perfeitamente com o lado mais teatral da elrow.
Mas foi com Joris Voorn que, para mim, a conexão entre música e arquitetura do espetáculo ganhou uma dimensão especial.
Existe algo quase cinematográfico na maneira como Voorn constrói seus sets. Em vez de simplesmente entregar impacto, ele trabalha com atmosfera, camadas e progressão. E dentro daquele universo visual, cada mudança parecia encontrar uma nova paisagem.
Era como se a música abrisse portas dentro do próprio jardim.
E então existe Toni Varga, nome que conhece profundamente o DNA da elrow e sabe exatamente como transformar a pista em uma celebração coletiva. Porque talvez essa seja uma das grandes diferenças entre uma boa noite de música eletrônica e uma noite de elrow:
não basta fazer as pessoas dançarem. É preciso fazê-las participar.
A arte não está no palco. Está em todos nós

Na abertura da temporada, escrevi que a maior obra de arte da noite não era feita de madeira, luz ou cimento, mas de carne, osso, suor e sorriso: o público.
E algumas semanas depois, continuo acreditando nisso.
Talvez até mais.
Porque olhando para uma pista de elrow é impossível encontrar apenas um tipo de pessoa. Há fantasias, cores, personagens, roupas improváveis, grupos de amigos, desconhecidos que se abraçam, pessoas que dançam sozinhas e outras que parecem ter vindo ao mundo exclusivamente para aquele momento.
A elrow sempre teve essa capacidade de transformar a diferença em estética.
Ali, ninguém parece deslocado.
Pelo contrário: quanto mais você se permite sair da realidade, mais pertence àquele lugar.
E isso combina perfeitamente com a essência do Neo Kaos Garden, concebido por Okuda como um espaço em que liberdade e diversidade estão no centro, unindo arte, música e tecnologia em uma experiência que desafia a percepção da realidade.
É curioso pensar que, em uma época em que passamos tanto tempo tentando construir uma versão perfeita de nós mesmos para mostrar nas redes sociais, uma festa como a elrow faça justamente o contrário.
Ela nos convida a deixar de parecer e simplesmente ser.
Nem que seja por algumas horas.
Mais do que uma festa, uma linguagem

Talvez seja por isso que a elrow consiga ser tão internacional sem perder sua identidade.
Não é preciso falar espanhol. Nem inglês. Nem português.
Você só precisa entender o groove.
A residência de 2026 foi construída justamente sobre essa ideia de transformação constante: seis universos diferentes, cada um com sua própria identidade e narrativa, fazendo com que cada sábado seja uma experiência diferente dentro do grande universo Enter The WORTEX.
E o Neo Kaos Garden é uma das melhores traduções dessa filosofia.
Porque a elrow não entrega simplesmente um tema.
Entrega um mundo.
E talvez essa seja a grande diferença entre assistir a uma festa e vivê-la.
Você pode assistir a um vídeo da pista. Pode ver as esculturas. Pode fotografar os personagens. Pode até tentar explicar para alguém como é estar ali.
Mas existe um momento em que nenhuma fotografia consegue traduzir aquilo.
É quando a música cresce, as luzes explodem, milhares de pessoas levantam os braços ao mesmo tempo e, por alguns segundos, você olha ao redor e percebe que todos estão vivendo exatamente a mesma coisa.
Não importa de onde vieram.
Não importa quem são.
Naquele instante, existe apenas a pista.
E o caos floresce.
Um universo que ainda está em movimento

O mais interessante é que esta noite não representa um ponto final, mas apenas mais um capítulo da temporada da elrow no [UNVRS].
E essa é talvez a maior provocação da marca: quando você acha que já entendeu o que é a elrow, ela muda de forma.
Depois do Neo Kaos Garden, ainda há outros universos esperando para serem descobertos, com a temporada seguindo até 3 de outubro, quando acontece a Closing Party.
Porque a elrow parece saber uma coisa que muitas festas esquecem:
a surpresa também é parte da música.
E enquanto saio do [UNVRS], ainda com aquela mistura de cansaço, euforia e confete imaginário grudado na alma, fico com a sensação de que talvez seja justamente esse o segredo.
A elrow não tenta nos fazer esquecer que estamos em Ibiza.
Ela faz algo muito mais interessante.
Por algumas horas, ela transforma Ibiza em outro planeta.
E, no último sábado, esse planeta tinha a forma de um jardim.
Um jardim colorido, psicodélico, caótico e absolutamente vivo.
Neo Kaos Garden.
Onde o caos floresce.
E onde, por algumas horas, todos nós fomos parte dele.

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