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“Dry Cleaning” no palco do Balaclava Fest, no Tokio Marine Hall

By Conteúdo Digital28 setembro, 2026Updated:28 setembro, 2026Nenhum comentário6 Mins Read
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by Charlie Farewell

Dry Cleaning transforma o palco do Balaclava Fest em uma colisão entre volume e spoken word.

O Dry Cleaning chegou ao palco do Balaclava Fest, no Tokio Marine Hall, em São Paulo, com uma proposta que, ao vivo, ganhou contornos ainda mais agressivos do que aqueles registrados em seus discos. O quarteto londrino optou por um arranjo pesado, com guitarras e baixo em volume bastante alto, criando uma parede sonora que colocou a seção instrumental no centro da apresentação. O resultado foi intenso, físico e, em vários momentos, deliberadamente sufocante.

No centro desse turbilhão estava Florence Shaw, cuja presença continua sendo uma das características mais particulares do grupo. Em vez de assumir o papel convencional de uma vocalista de rock, Shaw trabalha com o spoken word, recitando frases, observações e imagens com sua conhecida entonação seca, quase conversada. O problema, no entanto, é que, em São Paulo, sua voz esteve baixa demais em boa parte do show.

A escolha de colocar os instrumentos tão à frente produziu um efeito curioso. Justamente aquilo que torna o Dry Cleaning imediatamente reconhecível — a voz de Shaw, suas pausas, o ritmo das palavras e a maneira aparentemente desinteressada de transformar situações banais em pequenas cenas absurdas — acabou sendo parcialmente encoberto pela banda. Em músicas nas quais a voz deveria funcionar quase como mais um instrumento rítmico, era possível perceber o contorno das frases sem necessariamente captar todos os detalhes.

E isso é particularmente significativo porque o equilíbrio entre Shaw e os três músicos sempre foi fundamental para a identidade do grupo. A imprensa especializada frequentemente destacou justamente esse contraste: de um lado, as guitarras, o baixo e a bateria construindo uma base tensa e expansiva; do outro, Shaw falando em um registro contido, como uma narradora deslocada no próprio ambiente. O Pitchfork, por exemplo, descreveu a combinação como um encontro entre instrumentação intensa e as divagações em spoken word da cantora.

No palco paulistano, entretanto, esse contraste foi levado para uma espécie de extremo. Tom Dowse, na guitarra, e Lewis Maynard, no baixo, construíram uma massa sonora particularmente encorpada, enquanto Nick Buxton sustentou a apresentação com uma bateria que ajudou a empurrar as músicas para uma dimensão mais próxima do rock pesado do que de uma interpretação minimalista do repertório.

A opção funcionou em termos de impacto. Mesmo quando as palavras de Shaw se perdiam parcialmente na mixagem, a música mantinha uma força considerável. O público respondeu à apresentação, acompanhando os momentos mais conhecidos do repertório e recebendo com entusiasmo uma banda que construiu sua reputação justamente por fugir das convenções do rock.

Formado em Londres no fim da década de 2010, o Dry Cleaning surgiu quando Dowse, Maynard e Buxton começaram a tocar juntos. Florence Shaw entrou posteriormente para completar a formação, depois de ser convidada por Dowse, seu antigo colega. O grupo começou a chamar atenção com os EPs Sweet Princess e Boundary Road Snacks and Drinks, lançados em 2019, antes de chegar ao primeiro álbum, New Long Leg, em 2021.

Produzido por John Parish, conhecido pelo trabalho com artistas como PJ Harvey, New Long Leg consolidou a fórmula do grupo: guitarras angulares, baixo pulsante, bateria precisa e a voz de Shaw funcionando mais como narrativa do que como canto tradicional. O disco chegou ao quarto lugar da parada britânica e recebeu ampla aclamação crítica.

A banda não permaneceu parada nessa fórmula. Stumpwork, de 2022, ampliou o espectro sonoro do quarteto, aproximando o pós-punk de elementos de indie rock, dream pop, psicodelia e momentos de maior experimentação. A própria interpretação de Shaw também ganhou novas possibilidades, alternando spoken word, murmúrios, canto e pequenas variações melódicas.

Em 2026, o grupo chegou a uma nova fase com Secret Love, seu terceiro álbum de estúdio, produzido por Cate Le Bon. O trabalho representa mais uma expansão da linguagem do quarteto, mantendo a combinação entre observações cotidianas, humor seco e uma sonoridade que pode oscilar entre o pós-punk, o art rock e atmosferas mais experimentais.

O setlist apresentado em São Paulo foi particularmente interessante por não se limitar ao material mais conhecido de New Long Leg. A abertura com “Strong Feelings” imediatamente colocou o público dentro da estética do grupo, enquanto “Gary Ashby”, “Blood”, “Her Hippo” e “Magic of Meghan” recuperaram diferentes momentos da trajetória da banda.

A sequência ganhou força com “Don't Press Me”, faixa de Stumpwork que já demonstrava como o grupo podia trabalhar com uma instrumentação mais nervosa enquanto Shaw permanecia deliberadamente contida. Em seguida, “My Soul/Half Pint” e “Cruise Ship Designer” reforçaram a conexão entre as diferentes fases da banda.

A parte final foi especialmente forte. “Joy”, “Scratchcard Lanyard”, “The Cute Things” e “Hit My Head All Day” colocaram lado a lado algumas das diferentes faces do Dry Cleaning: a estranheza cotidiana, o humor, o spoken word e o pós-punk transformado em algo menos preocupado com fórmulas tradicionais de composição.

“Scratchcard Lanyard”, em particular, continua sendo uma peça fundamental para entender a banda. A faixa pertence a New Long Leg, álbum no qual Shaw e seus companheiros encontraram uma maneira singular de transformar fragmentos do cotidiano em música. A crítica do Pitchfork destacou justamente a maneira como a entonação da cantora — mais do que uma melodia convencional — dá personalidade às composições.

Dry Cleaning

O show do Dry Cleaning em São Paulo deixou uma impressão paradoxal. A banda foi convincente justamente por sua potência, mas essa mesma potência prejudicou um dos elementos essenciais de sua identidade.

A escolha por guitarras e baixo muito altos criou uma apresentação agressiva e bastante física, algo que funcionou para boa parte do público. Mas, em uma banda cuja singularidade depende tanto da palavra, perder trechos da voz de Florence Shaw significa perder parte importante da experiência.

Não se trata de pedir ao Dry Cleaning que reproduza ao vivo exatamente a atmosfera dos discos. Pelo contrário: a força de uma apresentação está também na capacidade de transformar as músicas no palco. O problema foi de equilíbrio. O arranjo poderia ser pesado, barulhento e agressivo sem necessariamente colocar o spoken word de Shaw tão atrás na mixagem.

Ainda assim, o público recebeu a banda com entusiasmo. E talvez esse seja o ponto mais interessante da apresentação: mesmo com uma mixagem que em diversos momentos dificultou a compreensão das palavras, o Dry Cleaning conseguiu preservar a tensão, o humor e a estranheza que fizeram do grupo uma das formações mais particulares do pós-punk britânico contemporâneo.

Ao final, ficou a sensação de ter visto uma banda que não está simplesmente reproduzindo sua fórmula original. O Dry Cleaning está tornando seu som maior, mais pesado e mais físico. Resta encontrar, ao vivo, o ponto exato em que esse crescimento instrumental não faça desaparecer justamente a voz singular que ajudou a tornar o grupo reconhecível.

Setlist — Dry Cleaning

Tokio Marine Hall — São Paulo, Brasil
26 de setembro de 2026

  1. Strong Feelings
  2. Gary Ashby
  3. Blood
  4. Her Hippo
  5. Magic of Meghan
  6. Don't Press Me
  7. My Soul/Half Pint
  8. Cruise Ship Designer
  9. Evil Evil Idiot
  10. Sliced by a Fingernail
  11. Let Me Grow and You'll See the Fruit
  12. Joy
  13. Scratchcard Lanyard
  14. The Cute Things
  15. Hit My Head All Day

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