by Charlie Farewell
O show do Chapterhouse no Cine Joia, em São Paulo, na terça-feira (29), foi uma espécie de viagem no tempo sem nostalgia barata. Na turnê Whirlpool 35, a banda inglesa voltou ao palco para revisitar o disco que ajudou a colocá-la entre os nomes mais particulares da primeira geração do shoegaze britânico — e fez isso de maneira praticamente ritualística: o repertório percorreu Whirlpool e, depois, avançou por lados B, faixas de outras fases e terminou com um bis de duas músicas.
Mais do que reproduzir um disco clássico, o Chapterhouse mostrou por que aquelas canções continuam funcionando ao vivo. O que em 1991 podia parecer apenas uma parede de guitarras e efeitos hoje soa como uma construção cuidadosamente arquitetada, em que cada camada tem uma função.
Três guitarras contra um baixo
No palco, a formação atual da turnê colocou Andrew Sherriff e Stephen Patman nas guitarras e vocais, acompanhados pelo guitarrista Joe Light, pelo baixista Greg Moore e pelo baterista Ashley Bates.
A configuração de três guitarras e um baixo é fundamental para entender a dimensão do som apresentado no Cine Joia. Não se trata simplesmente de aumentar o volume. As três guitarras trabalham em planos diferentes, criando aquele efeito característico do Chapterhouse em que melodias, ruídos, reverberações e distorções parecem ocupar o mesmo espaço.
É justamente aí que Whirlpool ganha outra dimensão. O álbum, lançado pela Dedicated em abril de 1991, surgiu em um momento em que o shoegaze ainda estava sendo definido, mas o Chapterhouse já incorporava elementos que escapavam do modelo mais previsível do gênero. A própria AllMusic descreve a banda como parte da primeira onda do shoegaze que rapidamente incorporou elementos eletrônicos e dançantes ao seu som.
No Cine Joia, essa característica ficou evidente.
Ashley Bates conduz a máquina
Se as guitarras são responsáveis pela paisagem, Ashley Bates é quem mantém tudo em movimento.
O baterista não atua apenas como marcação rítmica. É ele quem dá direção às músicas, especialmente quando as camadas de guitarra ameaçam transformar tudo em uma massa sonora contínua. Bates conduz as mudanças de dinâmica, segura os momentos mais atmosféricos e, quando necessário, empurra a banda para frente.
Essa função fica particularmente clara em músicas como “Treasure”, em que o Chapterhouse precisa equilibrar peso, repetição e expansão. A bateria funciona como uma espécie de eixo em torno do qual as guitarras podem se movimentar livremente.
A formação original já tinha essa característica peculiar: Andrew Sherriff e Stephen Patman nas guitarras e vocais, Simon Rowe na guitarra, Russell Barrett no baixo e Ashley Bates na bateria. A formação de 2026 preserva justamente essa ideia de uma banda construída a partir da interação entre várias guitarras e uma base rítmica extremamente precisa.
Whirlpool do começo ao fim
A primeira parte do espetáculo foi dedicada ao universo de Whirlpool. A abertura com “Ecstasy II” funcionou como uma introdução para o que viria em seguida, antes de a banda mergulhar definitivamente no repertório do álbum.
Vieram “Whirlpool”, “Breather”, “Pearl”, “Autosleeper”, “Treasure”, “Falling Down”, “April”, “Guilt”, “If You Want Me” e “Something More”.
É uma sequência que revela a riqueza do disco. Whirlpool não é apenas um álbum de shoegaze baseado em guitarras enevoadas. Há ali uma preocupação evidente com ritmo, melodias pop e estruturas que permitem que as músicas sejam mais acessíveis sem perder a estranheza.
Lançado em 1991, o álbum chegou ao número 23 da parada britânica. “Pearl”, seu single, alcançou a posição 67 no Reino Unido.
E há uma curiosidade que ajuda a explicar a dimensão do material: a história do Chapterhouse está diretamente ligada a uma cena que também envolvia Spacemen 3, Ride, Lush, Moose e Slowdive. Antes de serem identificados definitivamente com o shoegaze, os músicos vinham de uma abordagem mais próxima do space rock e do rock psicodélico.
Essa origem ajuda a entender por que Whirlpool nunca parece completamente preso às regras do shoegaze.
“Pearl”, “Treasure” e a força das camadas
“Pearl” foi um dos momentos em que a arquitetura das três guitarras ficou mais evidente. A música pertence àquele grupo de canções do Chapterhouse em que a melodia continua perfeitamente reconhecível mesmo quando cercada por efeitos e texturas.
A história da faixa também conecta o Chapterhouse a outro nome essencial daquela geração: Rachel Goswell, do Slowdive, participou dos vocais da gravação original.
Já “Treasure” mostrou o lado mais expansivo da banda. Ao vivo, a música deixa de ser simplesmente uma faixa de um álbum de 1991 e passa a funcionar como uma demonstração de como o Chapterhouse utiliza repetição e volume para criar tensão.
E então veio “If You Want Me”, uma das peças que melhor traduzem a obsessão da banda pelas possibilidades da guitarra. O próprio histórico do álbum registra a utilização de uma quantidade extraordinária de camadas de guitarra na gravação da faixa, uma característica que ajuda a explicar por que sua reprodução ao vivo exige uma formação tão carregada de instrumentos.
O intervalo que não era o fim
Quando a primeira grande parte terminou, o Chapterhouse deixou o palco. Por alguns instantes, parecia o encerramento natural de uma apresentação dedicada a Whirlpool.
Mas não era.
A banda voltou para explorar outro pedaço de sua história. Vieram “Precious One”, “Then We'll Rise”, “Come Heaven”, “In My Arms”, “Greater Power” e “Love Forever”.
É justamente nesse segundo momento que o show deixa de ser apenas uma celebração de aniversário e passa a funcionar como retrospectiva.
“Come Heaven” e “In My Arms”, por exemplo, estão entre as faixas que foram incorporadas ao universo expandido de Whirlpool em relançamentos posteriores. O box Chronology, lançado em 2023, organiza esse período da carreira incluindo singles, EPs, lados B, demos e outras gravações que ajudam a entender a evolução da banda.
“Love Forever” também tem um lugar especial nessa história. A música pertence à fase posterior da banda e ajuda a mostrar a ponte que o Chapterhouse construiu entre o shoegaze e uma abordagem mais eletrônica, caminho que seria desenvolvido no segundo álbum, Blood Music, de 1993.
Uma banda que não ficou presa ao shoegaze
Essa é talvez a parte mais interessante da trajetória do Chapterhouse.
A banda nasceu em Reading em 1987 e começou tocando ao lado do Spacemen 3. Depois passou a ser associada ao shoegaze, justamente no período em que nomes como My Bloody Valentine, Ride, Slowdive e Lush estavam criando uma nova linguagem para o rock britânico.
Mas o Chapterhouse nunca se contentou completamente com essa classificação.
Depois de Whirlpool, veio Blood Music, em 1993, disco que ampliou a presença de elementos eletrônicos e dançantes. A banda acabaria encerrando sua primeira fase em 1994.
Anos depois, houve uma reunião, e a banda voltou a aparecer em apresentações pontuais. Em 2026, o retorno ganhou um propósito específico: comemorar os 35 anos de Whirlpool.
Em entrevista publicada no Brasil, Andrew Sherriff comentou que o grupo chegou a reunir material arquivado para o projeto Chronology e que havia uma quantidade significativa de gravações que ajudava a explicar a trajetória entre Whirlpool e Blood Music.
O show do Cine Joia, portanto, não foi apenas uma reprodução de um álbum antigo. Foi a apresentação de uma banda que conseguiu voltar ao seu próprio passado sem transformá-lo em peça de museu.
E ainda faltavam duas músicas
Depois de “Love Forever”, novamente as luzes indicavam o fim. Mas o Chapterhouse ainda voltaria ao palco.
O último retorno trouxe “Mesmerise” e “Need (Somebody)”.
A escolha de “Mesmerise” é particularmente simbólica. A faixa pertence ao período imediatamente posterior a Whirlpool e se tornou um dos singles mais importantes da banda. Já “Need (Somebody)” recupera o Chapterhouse de antes do álbum, mostrando que a história apresentada naquela noite começava antes de 1991.
O encerramento, portanto, completou o arco: passado, Whirlpool, material posterior e, finalmente, as primeiras experiências que ajudaram a formar o grupo.
No fim, o que ficou do show foi menos a ideia de uma banda tentando recriar 1991 e mais a impressão de cinco músicos revisitando uma obra que ainda possui vida própria. As três guitarras continuam sendo o centro da arquitetura sonora, o baixo dá corpo ao conjunto e Ashley Bates permanece como o motor que impede aquela massa de efeitos de perder direção.
O Chapterhouse fez no Cine Joia aquilo que poucas bandas conseguem fazer décadas depois de seu período mais celebrado: tocou um disco histórico inteiro e conseguiu fazê-lo soar como música de palco, não como reprodução de um álbum.

Chapterhouse — Cine Joia, São Paulo — 29/09/2026
Tour: Whirlpool 35
Setlist
- Ecstasy II
- Whirlpool
- Breather
- Pearl
- Autosleeper
- Treasure
- Falling Down
- April
- Guilt
- If You Want Me
- Something More
- Precious One
- Then We'll Rise
- Come Heaven
- In My Arms
- Greater Power
- Love Forever
Encore:
18. Mesmerise
19. Need (Somebody)

