by Ana Paula Caldas
Nos dias 18 e 19 de setembro, o DHB realizou sua quarta edição em Portugal, desta vez no Clássico Beach Club, em São João da Caparica, a poucos minutos de Lisboa. Com house, afro house e minimal como pilares musicais, o espaço funcionou muito bem, com um grande palco central e uma estrutura que ia além da música: bar, lojinhas de roupas e acessórios, cadeiras de massagem, espaço de tatuagem e vários lounges com almofadas, criando ambientes descontraídos para relaxar e conversar.
Mas é na pista que a experiência do festival realmente acontece. E foi justamente aí que Rooléh me chamou a atenção. O DJ e produtor holandês, nome emergente da cena house de Amsterdã, entrou diante de uma pista praticamente vazia. Afinal, com um dia ensolarado, grande parte do público ainda estava na praia. Aos poucos, porém, as pessoas foram se aproximando, atraídas pela qualidade e pela energia da música. Ao final, Rooléh entregou uma pista completamente cheia para Ahmed. Seu tech house apresentou altíssima qualidade, com groove, técnica e uma progressão muito bem conduzida.
Na sequência, Ahmed Spins encontrou uma pista cheia, mas sua apresentação me pareceu menos definida. O DJ e produtor marroquino vem construindo uma carreira internacional marcada pela abertura a diferentes gêneros e influências. No entanto, naquele sábado, essa liberdade acabou por me parecer menos consistente. A seleção transitou pelo nu-disco, house, afro e tech house, sem uma direção musical tão clara. A diversidade, que é parte importante de sua identidade artística, naquele momento acabou por tornar a apresentação um pouco confusa.
Bedouin entrou em outro registro. Formado por Tamer Malki e Rami Abousabe, o duo construiu ao longo dos anos uma assinatura que cruza house, deep e melodic house com elementos provenientes de suas raízes culturais do Oriente Médio. É uma sonoridade que não depende simplesmente de inserir elementos “étnicos” sobre uma estrutura eletrônica: existe uma linguagem própria, construída a partir da combinação entre essas raízes, a formação ocidental e as experiências acumuladas em diferentes partes do mundo. O resultado é hipnótico, orgânico e atmosférico, com uma capacidade muito particular de criar uma narrativa sem perder a funcionalidade da pista.
Depois veio Luciano. E aqui estamos falando de outra escala de experiência. Lucien Nicolet, suíço-chileno conhecido simplesmente como Luciano, tem uma trajetória de mais de três décadas na música eletrônica, construída entre o minimal, o house e sua forte ligação com a cena eletrônica latino-americana. Sua entrada foi recebida com forte ovação do público, numa demonstração imediata do peso de seu nome. Essa experiência se manifesta na forma como conduz tempo, ritmo e expectativa, sem se prender a uma categoria específica. No DHB, sua apresentação foi excepcional. Um daqueles sets que ajudam a explicar por que alguns artistas atravessam gerações e permanecem como referências.
O DHB Portugal 2026 ocupa um espaço particular no calendário eletrônico português, com uma proposta boutique que valoriza a música, mas também tudo aquilo que acontece ao seu redor. No sábado que acompanhei, havia uma atmosfera leve e envolvente, um público conectado com a experiência e uma seleção de artistas capaz de conduzir a tarde e a noite por diferentes paisagens sonoras. É nessa combinação entre música, lugar e pessoas que o festival encontra sua identidade, muito além do line-up.
Flagrante do Festival :
















pics by Ana John

