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Flock of Seagulls no Cine Joia

By Conteúdo Digital9 outubro, 2026Nenhum comentário7 Mins Read
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by Charlie Farewell

A Flock of Seagulls no Cine Joia: uma viagem pela memória da new wave.

Há bandas que chegam ao palco carregando o peso de uma época. A Flock of Seagulls é uma delas. Na noite de 7 de outubro, no Cine Joia, em São Paulo, o grupo finalmente fez sua estreia no Brasil, mais de quatro décadas depois de transformar sintetizadores, guitarras com efeitos e uma estética futurista em uma das marcas mais reconhecíveis da new wave britânica.

Formado em Liverpool no final dos anos 1970 por Mike Score, seu irmão Ali Score, Frank Maudsley e Paul Reynolds, o A Flock of Seagulls surgiu em uma cidade que já carregava o peso histórico dos Beatles, mas que naquele momento também era terreno fértil para uma nova geração de músicos interessados em pós-punk, eletrônica e experimentação. Os primeiros ensaios aconteciam no salão de cabeleireiro onde Mike Score trabalhava, uma origem curiosa para uma banda que acabaria sendo tão associada à música quanto ao visual de seu vocalista. 

O primeiro álbum, lançado em 1982, apresentou ao mundo uma combinação que continua imediatamente identificável: teclados atmosféricos, guitarras espaciais, linhas de baixo marcantes e batidas eletrônicas. “I Ran (So Far Away)” levou o grupo ao grande público, especialmente nos Estados Unidos, enquanto “Space Age Love Song” ajudou a estabelecer a dimensão mais melódica e atmosférica de sua sonoridade.

No ano seguinte, Listen consolidou a trajetória internacional da banda. O disco trouxe “Wishing (If I Had a Photograph of You)”, um dos grandes clássicos do repertório do grupo e um Top 10 britânico. 

Mas reduzir o A Flock of Seagulls a “I Ran” seria uma injustiça histórica. “D.N.A.”, instrumental do álbum de estreia, levou a banda ao Grammy de Melhor Performance Instrumental de Rock em 1983. É justamente nessa faixa que fica mais evidente a importância do grupo para a linguagem da época: antes de ser apenas uma banda de cabelos extravagantes e videoclipes futuristas, o A Flock of Seagulls tinha uma proposta sonora bastante particular.

O tempo passou

O problema de uma banda que construiu sua identidade em torno de uma sonoridade tão específica é que o tempo inevitavelmente se torna parte do espetáculo.

Mike Score continua sendo o centro da operação. A formação atual, porém, está distante daquela que gravou os discos que fizeram o nome do grupo: Pando assume o baixo, Kevin Rankin está na bateria e Gord Deppe, do The Spoons, toca guitarra. A própria história recente do A Flock of Seagulls é marcada por diferentes formações reunidas em torno de Score. 

A banda também não vive exclusivamente de nostalgia. Em 2024, Score lançou Some Dreams, o primeiro álbum de material inédito do A Flock of Seagulls em quase três décadas. O trabalho procura atualizar a fórmula original sem abandonar os sintetizadores, as guitarras e as atmosferas que definiram o grupo. 

No Cine Joia, entretanto, ficou evidente que existe uma diferença considerável entre preservar uma identidade e reproduzir a energia que tornou aquela identidade tão especial.

Um show para os fãs

O repertório foi cuidadosamente construído para quem conhece a banda. “Modern Love Is Automatic”, “Hearts on Fire”, “Nightmares”, “The More You Live, the More You Love”, “Transfer Affection” e “Telecommunication” formaram uma espécie de retrospectiva condensada da trajetória do grupo, enquanto “Some Dreams” representou o material mais recente.

E é justamente aí que o show encontra seu maior mérito — e também sua principal limitação.

A Flock of Seagulls sabe exatamente o que seu público quer ouvir. O problema é que, em alguns momentos, parece tocar para esse público quase exclusivamente pela força da memória.

O espetáculo foi um tanto monótono, especialmente em sua parte intermediária. A estrutura das músicas, os arranjos e a própria dinâmica do palco pouco variaram. Faltou aquele elemento de imprevisibilidade que transforma uma apresentação correta em um grande show.

Não significa que a banda tenha tocado mal. Pelo contrário. Instrumentalmente, a apresentação encontrou seus melhores momentos justamente quando os músicos deixaram as camadas eletrônicas respirarem e permitiram que as guitarras e o baixo assumissem maior presença.

A comunicação com o público, entretanto, foi bastante econômica. Grande parte dessa interação ficou concentrada no baixista Pando, que funcionou como uma espécie de interlocutor da banda durante a apresentação. Mike Score permaneceu muito mais concentrado na execução e no repertório do que em construir uma relação mais intensa com a plateia.

E existe ainda uma questão inevitável: a voz de Mike Score já não tem o mesmo fôlego de décadas atrás.

Não se trata de cobrar de um músico de 68 anos que cante como cantava aos 25. A questão é perceber como determinadas músicas foram construídas originalmente em torno de uma voz mais vigorosa, capaz de atravessar os arranjos eletrônicos com maior facilidade. Em alguns momentos do Cine Joia, Score precisou economizar energia e trabalhar dentro de seus limites atuais.

Isso fica especialmente perceptível quando o repertório chega aos grandes clássicos.

Quando “Space Age Love Song” e “Wishing” aparecem

É curioso observar como o público muda quando as músicas certas começam.

“Space Age Love Song” trouxe de volta aquela atmosfera que continua sendo uma das maiores virtudes do A Flock of Seagulls. É uma música que envelheceu extraordinariamente bem porque não depende apenas da nostalgia: sua arquitetura sonora continua elegante, estranha e futurista.

“Wishing (If I Had a Photograph of You)” foi outro momento em que a ligação entre banda e plateia ficou mais evidente. Ali estava a canção que atravessou gerações e que ajudou a transformar Listen em um dos discos fundamentais da primeira fase do grupo. 

Mas foi inevitavelmente “I Ran” que provocou a maior reação.

A música continua sendo uma máquina pop praticamente perfeita. O riff, os sintetizadores e a estrutura melódica são reconhecidos nos primeiros segundos. Não é apenas uma canção dos anos 1980: é uma dessas gravações que conseguiram se transformar em referência cultural permanente.

E talvez seja justamente por isso que o show funciona melhor quando deixa de tentar provar que A Flock of Seagulls ainda é uma banda contemporânea e simplesmente assume o que ela representa.

A nostalgia sem maquiagem

O A Flock of Seagulls não precisa fingir que 1982 ainda existe.

A força do grupo está justamente em ter criado uma música que sobreviveu ao próprio momento histórico. A banda ajudou a construir a estética sonora de uma época em que sintetizadores e guitarras começaram a ocupar territórios diferentes dentro do pop, enquanto os videoclipes transformavam músicos em personagens visuais.

O cabelo de Mike Score acabou se tornando mais famoso do que algumas de suas canções, mas a música permaneceu. O próprio Score já reclamou da tendência de reduzir a banda à estética, lembrando que havia uma preocupação musical por trás daquele visual. 

No Cine Joia, essa história estava presente em cada sintetizador, em cada guitarra e principalmente na reação de um público que sabia exatamente o que tinha ido buscar.

Foi um show para os fãs.

Para quem esperava uma apresentação explosiva, cheia de variações e com a energia vocal da formação clássica, pode ter faltado alguma coisa. Para quem queria ouvir ao vivo músicas que fazem parte da trilha sonora da new wave, porém, havia ali uma recompensa considerável.

O A Flock of Seagulls não voltou ao palco para recriar 1982 — e seria impossível fazê-lo. Voltou para mostrar que aquelas músicas ainda existem.

E, quando os primeiros acordes de “I Ran” surgiram no Cine Joia, ficou claro que algumas viagens no tempo não precisam de máquinas.

Setlist — A Flock of Seagulls no Cine Joia, São Paulo — 7/10/2026

  1. Modern Love Is Automatic
  2. Hearts on Fire
  3. Rainfall
  4. Nightmares
  5. Him
  6. The More You Live, the More You Love
  7. Transfer Affection
  8. Say You Love Me
  9. Lovers and Strangers
  10. Some Dreams
  11. Man Made
  12. Telecommunication
  13. Space Age Love Song
  14. Wishing (If I Had a Photograph of You)
  15. I Ran
  16. Bis: Messages

By    Charlie Farewell

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