by Mariela Gregori
Em dois dias de programação, o Starlight reuniu um público internacional, apresentou diferentes propostas musicais e transformou um dos cenários mais emblemáticos do mundo em ponto de encontro da cena eletrônica. Entre experiências visuais impressionantes e desafios logísticos, a primeira edição deixou boas razões para acompanhar o futuro do festival.
Quem olhava para o palco principal do Starlight Festival podia ter a impressão de estar diante de um cenário impossível. Assinadas pelos estúdios de arte digital Sila Sveta e Setup Designs, as projeções mapeadas e os feixes de laser criavam ilusões de ótica que faziam as Grandes Pirâmides de Gizé parecer flutuar no horizonte, acima da cabine do DJ e dos paredões de LED.
Realizado nos dias 9 e 10 de outubro de 2026, no Egito, o evento apostou na combinação entre música eletrônica, tecnologia e patrimônio histórico. Mas, além do cenário extraordinário, foram as particularidades dos palcos, a diversidade do público e os detalhes da experiência que definiram a estreia.
Um público internacional sem perder a identidade local
A lotação foi preenchida, mas sem que a circulação se tornasse desconfortável — um ponto positivo para uma primeira edição dessa dimensão. O público reunia diferentes nacionalidades, com forte presença egípcia e árabe, além de visitantes do Brasil, México, Estados Unidos e diversos países europeus.
Essa mistura deu ao festival um caráter internacional sem apagar sua conexão com o público local. Para o Egito, eventos desse perfil também representam uma oportunidade de aproximar a cena eletrônica do país de visitantes que combinam música e turismo em suas viagens.

Três palcos, três experiências
Embora as Pirâmides fossem o elemento comum a todo o evento, cada palco oferecia uma perspectiva diferente. E foi justamente nessa diversidade que surgiram alguns dos aspectos mais interessantes da programação.
Homeground, by Visa: a vista das Pirâmides e os talentos locais
O Homeground combinava uma vista espetacular das Pirâmides de Gizé com a oportunidade de descobrir novas joias da cena eletrônica egípcia. O palco recebeu DJs locais em ascensão, dando visibilidade a artistas que vêm construindo seu espaço na cena e oferecendo ao público a chance de conhecer novos nomes.
Visualmente, porém, a proposta era mais discreta. A iluminação e os efeitos de produção tinham menos impacto, deixando a música e a paisagem como protagonistas. A vista compensava parte dessa simplicidade, mas havia espaço para explorar melhor os recursos audiovisuais e a integração entre palco e monumentos.
A valorização dos talentos locais foi um acerto importante, especialmente em um festival internacional que também pode funcionar como vitrine para a cena eletrônica egípcia.
No Sleep Giza: quando as Pirâmides fazem parte do espetáculo
O No Sleep Giza apresentou uma das propostas visuais mais interessantes do festival. O trabalho com o telão e as projeções alternava momentos em que as imagens assumiam o protagonismo com outros em que as próprias Pirâmides se destacavam na paisagem.
A perspectiva elevada do espaço também fazia diferença: mesmo a uma certa distância do palco, era possível acompanhar as apresentações sem perder de vista os monumentos. Em vez de competir com o cenário, a estrutura criava uma composição na qual música, imagem e arquitetura se complementavam.
Foi um exemplo de como a produção visual pode valorizar o local sem depender exclusivamente de grandes estruturas ou efeitos luminosos.
Orion, by Coca-Cola: a surpresa musical

Próximo à entrada do festival, o Orion parecia inicialmente um espaço menor diante dos outros palcos. A impressão mudava quando se observava seu posicionamento e, principalmente, a qualidade da música.
Bem integrado à circulação do público, o palco acabou sendo uma surpresa positiva. Sua programação mostrou que um espaço não precisa ter as maiores dimensões para conquistar relevância: localização, curadoria musical e uma boa experiência podem fazer toda a diferença.
O Orion foi um dos acertos da estreia justamente por oferecer algo que ia além das expectativas iniciais.
Gastronomia de qualidade e bebidas a preços de festival
A alimentação foi outro ponto positivo. Os food trucks ofereceram ótimas opções gastronômicas por preços bastante acessíveis, uma combinação especialmente bem-vinda em um festival internacional, onde comer costuma representar uma parcela considerável dos gastos.
As bebidas tiveram uma avaliação diferente. Seus preços eram elevados em comparação com os valores habitualmente praticados no Egito, embora estivessem dentro do esperado para um festival desse porte. Na prática, a gastronomia apresentou uma relação entre qualidade e preço mais vantajosa, enquanto as bebidas pesavam mais no orçamento.

O principal ponto a melhorar: a logística de entrada
Nem tudo funcionou perfeitamente. No primeiro dia, o acesso ao festival foi marcado por uma espera superior a duas horas entre o primeiro portão de controle e a entrada efetiva no evento.
Por um lado, o rigor dos procedimentos demonstrava a preocupação da organização com o controle de acesso e a segurança, algo compreensível em um evento internacional realizado em um local de tamanha relevância histórica. Por outro, o tempo de espera foi excessivo e acabou sendo um dos pontos negativos da experiência.
Para as próximas edições, o desafio será manter esse nível de controle sem comprometer a fluidez da entrada. Uma gestão mais eficiente do fluxo de visitantes pode reduzir o desgaste inicial e permitir que o público comece a aproveitar a programação mais cedo.
Afinal, a experiência de um festival começa antes mesmo do primeiro set — e duas horas de espera são um obstáculo que merece atenção.

Uma estreia promissora, com espaço para evoluir
O Starlight parte de um diferencial difícil de reproduzir em outros lugares: a possibilidade de reunir música eletrônica internacional em um cenário de importância histórica mundial. A primeira edição mostrou que existe público para essa proposta e que diferentes formatos de palco podem coexistir dentro de um mesmo evento.
Entre os acertos, destacam-se a lotação sem desconforto significativo, a diversidade internacional da audiência, a valorização dos DJs egípcios em ascensão no Homeground, a experiência visual do No Sleep Giza e a qualidade musical do Orion. A gastronomia acessível também contribuiu para uma experiência mais equilibrada.
Em contrapartida, a produção visual mais discreta do Homeground e, sobretudo, a demora na entrada do primeiro dia apontam oportunidades concretas de melhoria.
O potencial do Starlight está em transformar a força de seu cenário em uma identidade própria, sustentada também pela curadoria musical, pela qualidade da produção e pela atenção à experiência do público. As Pirâmides são um começo extraordinário; o desafio é fazer com que todos os outros elementos estejam à altura delas.
A próxima edição terá a oportunidade de consolidar essa proposta, corrigindo os problemas identificados na estreia e preservando o que funcionou. Se conseguir evoluir nesses aspectos, o Starlight poderá fortalecer sua posição entre as experiências internacionais que conectam música eletrônica, turismo e cultura.

A pré-venda da próxima edição começa em 20 de outubro. Mais informações: página de pré-venda do Starlight Festival.

