by Charlie Farewell
Kneecap leva a fúria do rap irlandês ao Cine Joia em noite de confronto político.
Na estreia brasileira, o trio de Belfast combinou hip-hop, punk-rave e referências à resistência irlandesa em uma apresentação realizada às vésperas do segundo turno das eleições brasileiras.
O Kneecap chegou ao Cine Joia, em São Paulo, na sexta-feira, 23 de outubro, com uma proposta que não deixa muito espaço para neutralidade. Formado por Mo Chara, Móglaí Bap e DJ Próvaí, o trio norte-irlandês transformou sua primeira apresentação no Brasil em um encontro entre música eletrônica, identidade cultural e contestação política. O resultado foi uma noite em que a pista de dança serviu tanto para liberar energia quanto para dar voz a posições que o grupo faz questão de defender publicamente.
O show estava previsto para as 22h, mas começou às 22h15. Os quinze minutos de atraso foram um detalhe diante do que se seguiu, embora a pontualidade continue sendo parte importante da relação entre artistas e público. A partir da entrada do trio, porém, a atenção se deslocou rapidamente para o palco e para uma sonoridade construída sobre graves profundos, batidas incisivas e versos disparados em irlandês e inglês.
A escolha da data acrescentou uma camada particular à apresentação. Com o Brasil às vésperas do segundo turno presidencial, as posições políticas do Kneecap encontraram um ambiente em que identidade, polarização e resistência estavam presentes no debate público. A história da Irlanda do Norte não pode ser reduzida à realidade brasileira, mas as questões levantadas pelo grupo — colonialismo, repressão cultural e disputa pelo direito de definir a própria identidade — ultrapassam as fronteiras de seu país.
O Kneecap não tenta esconder suas convicções atrás de um discurso abstrato sobre liberdade artística. Pelo contrário: faz da provocação parte de sua identidade e coloca o conflito diretamente no centro do espetáculo.
Uma rave com sotaque irlandês
A principal diferença entre o Kneecap e boa parte dos artistas que transitam pelo rap contemporâneo está na maneira como a música eletrônica determina a experiência. DJ Próvaí não funciona apenas como suporte para os dois MCs. As bases são fundamentais para a identidade do trio, alternando pulsação de pista, graves pesados e uma agressividade que aproxima o hip-hop da atitude punk.
O resultado não depende de guitarras para produzir impacto. É a pressão eletrônica que sustenta boa parte da energia, enquanto Mo Chara e Móglaí Bap alternam rimas, provocações e refrões com uma entrega que transforma as canções em manifestações coletivas.
Essa mistura aparece logo na sequência inicial. “Éire go Deo”, “Smugglers & Scholars” e “Carnival” estabelecem o tom de uma apresentação que não pretende construir lentamente sua atmosfera. “Better Way to Live”, “Sick in the Head” e “Gael Phonics” ampliam o panorama de um repertório no qual a irreverência convive com referências históricas e culturais.
Há uma qualidade física nessa música. O grave não está ali apenas para preencher o espaço, mas para impor uma sensação de movimento. A eletrônica dá ao Kneecap uma dimensão que ultrapassa o formato tradicional do concerto de rap, aproximando a experiência de uma rave em que a dança e a contestação compartilham o mesmo espaço.
É também por isso que o idioma não constitui uma barreira decisiva. Nem todos os presentes precisam compreender cada verso em irlandês para reconhecer a intenção das rimas, a força dos refrões ou o caráter desafiador da performance. A comunicação passa tanto pelas palavras quanto pelo ritmo, pela repetição e pela postura dos integrantes.
A língua como instrumento de resistência
Para compreender o Kneecap, é necessário entender por que a língua irlandesa ocupa uma posição tão importante em sua obra. Em uma região marcada pela história do domínio britânico e pelos conflitos em torno da identidade nacional, usar o idioma no rap contemporâneo significa reivindicar espaço para uma cultura que sofreu processos de marginalização.
O trio transforma essa afirmação em algo deliberadamente pouco solene. Em vez de apresentar a identidade irlandesa como uma peça de museu, mistura referências históricas, humor ácido, gírias e uma estética ligada à cultura urbana. A língua aparece viva, provocadora e conectada ao presente.
“An Ra” e “Get Your Brits Out” deixam evidente a disposição do grupo de confrontar a relação histórica com o poder britânico. “Smugglers & Scholars”, por sua vez, dialoga com a memória cultural e política irlandesa. O repertório não precisa interromper a festa para introduzir essas questões: elas já fazem parte da estrutura das músicas.
O título do álbum FENIAN também carrega esse significado. Associada à história do nacionalismo e do republicanismo irlandês, a palavra adquiriu diferentes sentidos ao longo do tempo, incluindo o uso pejorativo contra irlandeses. Ao recuperá-la, o grupo transforma um termo historicamente carregado em uma declaração de identidade.
O álbum, lançado em 2026, surgiu depois de um período particularmente turbulento para o trio, que enfrentou repercussões jurídicas e políticas relacionadas às suas manifestações públicas. Essa experiência reforça a tensão entre a dimensão artística do Kneecap e a maneira como suas posições são recebidas fora dos palcos.
De Fine Art a FENIAN: o repertório como declaração
A apresentação em São Paulo não ficou limitada ao material mais recente. A presença de músicas de Fine Art, álbum de 2024, ao lado das faixas de FENIAN, permitiu observar diferentes momentos da trajetória do grupo.
“Fine Art” reúne a irreverência e as batidas que ajudaram a consolidar a reputação do trio, enquanto a faixa-título do novo disco amplia o peso das referências históricas e da afirmação cultural. “Carnival”, associada à controvérsia judicial envolvendo Mo Chara no Reino Unido, acrescenta outra dimensão à apresentação: a de um artista cuja trajetória recente foi atravessada por acontecimentos que extrapolaram o campo musical.
“Cold at the Top”, “Liars Tale” e “Big Bad Mo” ajudam a mostrar a variedade do repertório, enquanto “H.O.O.D” representa a capacidade do Kneecap de transformar humor, linguagem de rua e batidas contundentes em uma assinatura reconhecível.
A presença de “Better Way to Live”, colaboração com Grian Chatten, do Fontaines D.C., também reforça a conexão do trio com uma geração de artistas irlandeses que conquistou espaço internacional sem abandonar suas particularidades culturais.
Essa diversidade importa porque o Kneecap não se sustenta apenas pela controvérsia. Sua música tem estrutura, identidade e uma relação clara entre produção e performance. A eletrônica não serve simplesmente para tornar as mensagens mais palatáveis: ela é parte do próprio discurso.
Palestina, antifascismo e o ambiente político brasileiro
A dimensão política da noite também ultrapassou as referências à Irlanda. O grupo tem defendido publicamente a causa palestina e se posicionado contra o colonialismo, provocando reações e controvérsias em diferentes países. No Cine Joia, mensagens de apoio à Palestina exibidas antes da entrada do trio deram o tom político da apresentação e foram acompanhadas por manifestações do público.
Essas posições ganharam ressonância particular na semana que antecedeu o segundo turno brasileiro. Não porque a história irlandesa e os conflitos do Oriente Médio sejam equivalentes à disputa eleitoral no Brasil, mas porque a apresentação colocou em circulação temas que também atravessam o debate político contemporâneo: poder, identidade, nacionalismo e resistência.
O Kneecap não busca transformar o palco em um espaço livre de contradições. Seu método é o confronto direto, com ironia, linguagem explícita e referências que podem incomodar. Essa postura faz parte da experiência artística, ainda que o valor musical do grupo não deva ser reduzido à concordância ou discordância com suas posições.
O que torna o trio interessante é a capacidade de manter a música no centro dessa disputa. O conteúdo político não interrompe a festa; está incorporado a ela. A batida convida ao movimento, enquanto as letras questionam estruturas de poder. A pista funciona como espaço de convivência e manifestação, sem que seja necessário escolher entre dançar e prestar atenção ao que está sendo dito.
“THE RECAP” e “Bella Ciao”: dois momentos de encerramento
Na reta final, a sequência de “FENIAN”, “Big Bad Mo”, “Parful” e “H.O.O.D” concentra a energia que atravessa o repertório. “THE RECAP” fecha o set principal e resume a combinação de rap, eletrônica e provocação que define o grupo.
A música final do setlist não deve ser confundida com a trilha de saída. Depois do encerramento da apresentação, “Bella Ciao”, canção tradicional italiana associada à resistência antifascista, prolongou o significado político da noite. A escolha estabelece uma ligação simbólica com a tradição de canções de protesto e com a maneira como o Kneecap utiliza referências históricas para construir sua identidade.
O gesto funciona porque não surge isolado. Ao longo da apresentação, a língua irlandesa, a crítica ao poder britânico e a solidariedade à Palestina já haviam estabelecido o horizonte político do trio. “Bella Ciao” acrescenta uma referência internacional a esse conjunto, sem apagar as diferenças entre as histórias evocadas.
A estreia brasileira do Kneecap mostrou, assim, um grupo que encontra na eletrônica a força física de sua música e no rap um veículo para suas convicções. O atraso de quinze minutos foi um detalhe menor diante de uma apresentação cuja identidade se constrói na combinação entre dança, humor e confronto.
O mérito do trio está em não tratar esses elementos como partes separadas. A música não serve apenas de trilha para uma mensagem política, assim como a política não é um acessório para dar relevância ao espetáculo. No universo do Kneecap, ambas fazem parte da mesma linguagem: barulhenta, provocadora e consciente de que uma pista de dança também pode ser um lugar de afirmação.

KNEECAP — Setlist
Cine Joia — São Paulo, Brasil
23 de outubro de 2026
Turnê: FENIAN
Faixa de entrada: “Favourite” — Fontaines D.C.
- Éire go Deo
- Smugglers & Scholars
- Carnival
- Better Way to Live
- Sick in the Head
- Gael Phonics
- Cold at the Top
- An Ra
- Get Your Brits Out
- Guilty Conscience
- No Comment
- Sayonara
- Your Sniffer Dogs Are Shite
- I bhFiacha Linne
- Fine Art
- Rhino Ket
- Liars Tale
- FENIAN
- Big Bad Mo
- Parful
- H.O.O.D
- THE RECAP
Canção tocada na saída: “Bella Ciao” — tradicional italiana.

