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Kneecap leva a fúria do rap irlandês ao Cine Joia

By Conteúdo Digital26 outubro, 2026Nenhum comentário9 Mins Read
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by Charlie Farewell

Kneecap leva a fúria do rap irlandês ao Cine Joia em noite de confronto político.

Na estreia brasileira, o trio de Belfast combinou hip-hop, punk-rave e referências à resistência irlandesa em uma apresentação realizada às vésperas do segundo turno das eleições brasileiras.

O Kneecap chegou ao Cine Joia, em São Paulo, na sexta-feira, 23 de outubro, com uma proposta que não deixa muito espaço para neutralidade. Formado por Mo Chara, Móglaí Bap e DJ Próvaí, o trio norte-irlandês transformou sua primeira apresentação no Brasil em um encontro entre música eletrônica, identidade cultural e contestação política. O resultado foi uma noite em que a pista de dança serviu tanto para liberar energia quanto para dar voz a posições que o grupo faz questão de defender publicamente.

O show estava previsto para as 22h, mas começou às 22h15. Os quinze minutos de atraso foram um detalhe diante do que se seguiu, embora a pontualidade continue sendo parte importante da relação entre artistas e público. A partir da entrada do trio, porém, a atenção se deslocou rapidamente para o palco e para uma sonoridade construída sobre graves profundos, batidas incisivas e versos disparados em irlandês e inglês.

A escolha da data acrescentou uma camada particular à apresentação. Com o Brasil às vésperas do segundo turno presidencial, as posições políticas do Kneecap encontraram um ambiente em que identidade, polarização e resistência estavam presentes no debate público. A história da Irlanda do Norte não pode ser reduzida à realidade brasileira, mas as questões levantadas pelo grupo — colonialismo, repressão cultural e disputa pelo direito de definir a própria identidade — ultrapassam as fronteiras de seu país.

O Kneecap não tenta esconder suas convicções atrás de um discurso abstrato sobre liberdade artística. Pelo contrário: faz da provocação parte de sua identidade e coloca o conflito diretamente no centro do espetáculo.

Uma rave com sotaque irlandês

A principal diferença entre o Kneecap e boa parte dos artistas que transitam pelo rap contemporâneo está na maneira como a música eletrônica determina a experiência. DJ Próvaí não funciona apenas como suporte para os dois MCs. As bases são fundamentais para a identidade do trio, alternando pulsação de pista, graves pesados e uma agressividade que aproxima o hip-hop da atitude punk.

O resultado não depende de guitarras para produzir impacto. É a pressão eletrônica que sustenta boa parte da energia, enquanto Mo Chara e Móglaí Bap alternam rimas, provocações e refrões com uma entrega que transforma as canções em manifestações coletivas.

Essa mistura aparece logo na sequência inicial. “Éire go Deo”, “Smugglers & Scholars” e “Carnival” estabelecem o tom de uma apresentação que não pretende construir lentamente sua atmosfera. “Better Way to Live”, “Sick in the Head” e “Gael Phonics” ampliam o panorama de um repertório no qual a irreverência convive com referências históricas e culturais.

Há uma qualidade física nessa música. O grave não está ali apenas para preencher o espaço, mas para impor uma sensação de movimento. A eletrônica dá ao Kneecap uma dimensão que ultrapassa o formato tradicional do concerto de rap, aproximando a experiência de uma rave em que a dança e a contestação compartilham o mesmo espaço.

É também por isso que o idioma não constitui uma barreira decisiva. Nem todos os presentes precisam compreender cada verso em irlandês para reconhecer a intenção das rimas, a força dos refrões ou o caráter desafiador da performance. A comunicação passa tanto pelas palavras quanto pelo ritmo, pela repetição e pela postura dos integrantes.

A língua como instrumento de resistência

Para compreender o Kneecap, é necessário entender por que a língua irlandesa ocupa uma posição tão importante em sua obra. Em uma região marcada pela história do domínio britânico e pelos conflitos em torno da identidade nacional, usar o idioma no rap contemporâneo significa reivindicar espaço para uma cultura que sofreu processos de marginalização.

O trio transforma essa afirmação em algo deliberadamente pouco solene. Em vez de apresentar a identidade irlandesa como uma peça de museu, mistura referências históricas, humor ácido, gírias e uma estética ligada à cultura urbana. A língua aparece viva, provocadora e conectada ao presente.

“An Ra” e “Get Your Brits Out” deixam evidente a disposição do grupo de confrontar a relação histórica com o poder britânico. “Smugglers & Scholars”, por sua vez, dialoga com a memória cultural e política irlandesa. O repertório não precisa interromper a festa para introduzir essas questões: elas já fazem parte da estrutura das músicas.

O título do álbum FENIAN também carrega esse significado. Associada à história do nacionalismo e do republicanismo irlandês, a palavra adquiriu diferentes sentidos ao longo do tempo, incluindo o uso pejorativo contra irlandeses. Ao recuperá-la, o grupo transforma um termo historicamente carregado em uma declaração de identidade.

O álbum, lançado em 2026, surgiu depois de um período particularmente turbulento para o trio, que enfrentou repercussões jurídicas e políticas relacionadas às suas manifestações públicas. Essa experiência reforça a tensão entre a dimensão artística do Kneecap e a maneira como suas posições são recebidas fora dos palcos.

De Fine Art a FENIAN: o repertório como declaração

A apresentação em São Paulo não ficou limitada ao material mais recente. A presença de músicas de Fine Art, álbum de 2024, ao lado das faixas de FENIAN, permitiu observar diferentes momentos da trajetória do grupo.

“Fine Art” reúne a irreverência e as batidas que ajudaram a consolidar a reputação do trio, enquanto a faixa-título do novo disco amplia o peso das referências históricas e da afirmação cultural. “Carnival”, associada à controvérsia judicial envolvendo Mo Chara no Reino Unido, acrescenta outra dimensão à apresentação: a de um artista cuja trajetória recente foi atravessada por acontecimentos que extrapolaram o campo musical.

“Cold at the Top”, “Liars Tale” e “Big Bad Mo” ajudam a mostrar a variedade do repertório, enquanto “H.O.O.D” representa a capacidade do Kneecap de transformar humor, linguagem de rua e batidas contundentes em uma assinatura reconhecível.

A presença de “Better Way to Live”, colaboração com Grian Chatten, do Fontaines D.C., também reforça a conexão do trio com uma geração de artistas irlandeses que conquistou espaço internacional sem abandonar suas particularidades culturais.

Essa diversidade importa porque o Kneecap não se sustenta apenas pela controvérsia. Sua música tem estrutura, identidade e uma relação clara entre produção e performance. A eletrônica não serve simplesmente para tornar as mensagens mais palatáveis: ela é parte do próprio discurso.

Palestina, antifascismo e o ambiente político brasileiro

A dimensão política da noite também ultrapassou as referências à Irlanda. O grupo tem defendido publicamente a causa palestina e se posicionado contra o colonialismo, provocando reações e controvérsias em diferentes países. No Cine Joia, mensagens de apoio à Palestina exibidas antes da entrada do trio deram o tom político da apresentação e foram acompanhadas por manifestações do público.

Essas posições ganharam ressonância particular na semana que antecedeu o segundo turno brasileiro. Não porque a história irlandesa e os conflitos do Oriente Médio sejam equivalentes à disputa eleitoral no Brasil, mas porque a apresentação colocou em circulação temas que também atravessam o debate político contemporâneo: poder, identidade, nacionalismo e resistência.

O Kneecap não busca transformar o palco em um espaço livre de contradições. Seu método é o confronto direto, com ironia, linguagem explícita e referências que podem incomodar. Essa postura faz parte da experiência artística, ainda que o valor musical do grupo não deva ser reduzido à concordância ou discordância com suas posições.

O que torna o trio interessante é a capacidade de manter a música no centro dessa disputa. O conteúdo político não interrompe a festa; está incorporado a ela. A batida convida ao movimento, enquanto as letras questionam estruturas de poder. A pista funciona como espaço de convivência e manifestação, sem que seja necessário escolher entre dançar e prestar atenção ao que está sendo dito.

“THE RECAP” e “Bella Ciao”: dois momentos de encerramento

Na reta final, a sequência de “FENIAN”, “Big Bad Mo”, “Parful” e “H.O.O.D” concentra a energia que atravessa o repertório. “THE RECAP” fecha o set principal e resume a combinação de rap, eletrônica e provocação que define o grupo.

A música final do setlist não deve ser confundida com a trilha de saída. Depois do encerramento da apresentação, “Bella Ciao”, canção tradicional italiana associada à resistência antifascista, prolongou o significado político da noite. A escolha estabelece uma ligação simbólica com a tradição de canções de protesto e com a maneira como o Kneecap utiliza referências históricas para construir sua identidade.

O gesto funciona porque não surge isolado. Ao longo da apresentação, a língua irlandesa, a crítica ao poder britânico e a solidariedade à Palestina já haviam estabelecido o horizonte político do trio. “Bella Ciao” acrescenta uma referência internacional a esse conjunto, sem apagar as diferenças entre as histórias evocadas.

A estreia brasileira do Kneecap mostrou, assim, um grupo que encontra na eletrônica a força física de sua música e no rap um veículo para suas convicções. O atraso de quinze minutos foi um detalhe menor diante de uma apresentação cuja identidade se constrói na combinação entre dança, humor e confronto.

O mérito do trio está em não tratar esses elementos como partes separadas. A música não serve apenas de trilha para uma mensagem política, assim como a política não é um acessório para dar relevância ao espetáculo. No universo do Kneecap, ambas fazem parte da mesma linguagem: barulhenta, provocadora e consciente de que uma pista de dança também pode ser um lugar de afirmação.

KNEECAP — Setlist

Cine Joia — São Paulo, Brasil
23 de outubro de 2026
Turnê: FENIAN

Faixa de entrada: “Favourite” — Fontaines D.C.

  1. Éire go Deo
  2. Smugglers & Scholars
  3. Carnival
  4. Better Way to Live
  5. Sick in the Head
  6. Gael Phonics
  7. Cold at the Top
  8. An Ra
  9. Get Your Brits Out
  10. Guilty Conscience
  11. No Comment
  12. Sayonara
  13. Your Sniffer Dogs Are Shite
  14. I bhFiacha Linne
  15. Fine Art
  16. Rhino Ket
  17. Liars Tale
  18. FENIAN
  19. Big Bad Mo
  20. Parful
  21. H.O.O.D
  22. THE RECAP

Canção tocada na saída: “Bella Ciao” — tradicional italiana.

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