by Charlie Farewell
A estreia do TR/ST no Brasil aconteceu no Cine Joia, em São Paulo, com Robert Alfons à frente do projeto e o tecladista Romain Barry ao seu lado. Em uma formação reduzida, sem baterista no palco, a apresentação foi conduzida por sintetizadores, bases eletrônicas e pelos vocais característicos de Alfons. O repertório percorreu diferentes fases da carreira, mas o resultado acabou dividido entre momentos de grande intensidade e problemas técnicos que comprometeram a experiência sonora.
Previsto para começar às 21h30, o show teve início com quinze minutos de atraso. Desde os primeiros momentos, a mixagem se mostrou irregular. Em determinados trechos, a voz de Alfons ficava baixa em relação aos instrumentos, enquanto o músico solicitava ajustes à equipe técnica durante a execução das músicas. Sintetizadores, bases eletrônicas e outras camadas dos arranjos nem sempre encontravam o espaço necessário, criando passagens emboladas e diminuindo a definição do conjunto. Algumas entradas também não aconteciam com a precisão esperada, afetando a continuidade de certas músicas. Para um projeto cuja identidade depende justamente da construção de texturas e atmosferas, esses problemas fizeram diferença.
A formação apresentada no Cine Joia segue o formato levado ao Corona Capital 2025 e ao Cold Waves Festival, em setembro de 2026, com Alfons nos vocais e Barry nos teclados. Sem um baterista em cena, a dinâmica fica concentrada nas bases eletrônicas, que assumem toda a condução rítmica. A opção mantém a proposta sonora do projeto, mas também exige um encaixe preciso entre os músicos, as programações e a mixagem. No show paulistano, essa combinação nem sempre funcionou como deveria. A presença de uma bateria ao vivo poderia acrescentar impacto e uma pulsação mais orgânica às músicas, como já aconteceu em outras formações do TR/ST.
Uma comparação interessante é a sessão apresentada pelo projeto na KEXP, em 2019. Na ocasião, Alfons estava acompanhado por Esther Munits, também conhecida como Esther Blue, nos teclados, e Lia Simone Braswell na bateria. A percussão acrescentava outra dimensão às composições, equilibrando a estrutura eletrônica com uma execução mais orgânica. Era uma formação que permitia explorar as texturas do repertório sem abrir mão de uma presença rítmica mais física.

No Cine Joia, o setlist atravessou diferentes momentos da discografia. A abertura ficou por conta de “Bicep”, seguida por uma faixa não identificada, “Bulbform”, “Gloryhole” e “Capitol”. “Heaven” surgiu em versão acústica, criando uma pausa na sequência antes de “F.T.F.” e “Shoom”. A apresentação encontrou seus momentos mais fortes com “Sulk” e “Gone”, duas músicas que sintetizam muito bem a identidade do TR/ST. Em “Sulk”, a combinação entre a interpretação de Alfons, a melodia e as camadas eletrônicas trouxe à tona a atmosfera sombria que tornou o projeto conhecido. “Gone” manteve a intensidade e se destacou como outro ponto alto da noite. No encore, “Iris”, “Dressed for Space” e “Peer Pressure” encerraram o repertório.
Criado em 2010 por Robert Alfons e Maya Postepski, também integrante do Austra, o TR/ST começou como uma dupla. Postepski deixou oficialmente o projeto em 2012, após o lançamento do álbum de estreia, TRST, e Alfons passou a conduzir sua direção criativa. A colaboração entre os dois, no entanto, não terminou ali: Maya voltou a participar dos bastidores de The Destroyer, álbum duplo lançado em 2019, contribuindo para a composição de algumas faixas. Ao longo dos anos, Alfons também trabalhou com artistas como Cecile Believe e Jake Shears. Atualmente, ele permanece como o único integrante fixo do TR/ST.
A estreia brasileira confirmou a força de um repertório construído em torno de atmosferas densas, melodias marcantes e uma interpretação vocal bastante particular. “Sulk” e “Gone” foram os grandes destaques de uma apresentação que tinha material suficiente para alcançar um resultado mais contundente. No entanto, a mixagem irregular, os momentos em que a voz ficou encoberta e a falta de definição entre as camadas eletrônicas limitaram o impacto do show. A personalidade musical do TR/ST esteve presente do início ao fim, mas, no Cine Joia, nem sempre encontrou as condições técnicas necessárias para se revelar por completo.

