Enquanto o mercado ainda se adapta aos impactos da inteligência artificial generativa, uma nova fronteira tecnológica começa a ganhar espaço nos laboratórios e centros de pesquisa do mundo: a IA Quântica. Embora ainda distante do cotidiano da maior parte da população, especialistas apontam que essa tecnologia poderá representar um salto tão significativo quanto o que ocorreu com a chegada do ChatGPT e das ferramentas generativas nos últimos anos.
A IA generativa revolucionou a criação de conteúdo; a IA multimodal ampliou a capacidade de compreensão de diferentes linguagens; e a IA quântica promete acelerar exponencialmente o processamento dessas informações.
Paralelamente ao avanço dos agentes autônomos e das IAs multimodais, capazes de interpretar simultaneamente texto, voz, imagem, vídeo e comportamento humano, desponta a IA quântica como a próxima grande evolução tecnológica. Baseada em uma arquitetura computacional diferente da atual, ela utiliza qubits processados por QPUs (Quantum Processing Units), permitindo analisar um volume muito maior de informações e cenários simultaneamente. Na prática, isso pode fazer com que problemas que hoje exigiriam décadas ou até séculos de cálculo sejam resolvidos em minutos, abrindo caminho para avanços sem precedentes em áreas como ciência, saúde, logística e economia criativa.
Por conta do movimento frente IA responsável, que reúne mais de 50 associações da economia criativa, Bia Ambrogi, como presidente da APRO+SOM (Associação Brasileira de produtoras de Som) acompanha de perto a tramitação do Projeto de Lei 2.338/2023, responsável por estabelecer diretrizes para o desenvolvimento e o uso da IA no país. A executiva atualmente cursa MBA em IA Aplicada a Negócios e pós-graduação em Neurociências e Comportamento na FAAP.
Para Ambrogi, com esse avanço, a economia criativa terá uma capacidade inédita de leitura de audiência e mais profunda análise de comportamento por cruzar um volume maior de dados ao mesmo tempo, preferências e tendências culturais, e de prever padrões de consumo com um grau de precisão muito superior ao atual. Ao processar simultaneamente um volume muito maior de informações, cruzando inúmeras variáveis e testando milhões de cenários em poucos instantes, a quântica poderá permitir que experiências sonoras, audiovisuais e de entretenimento se adaptem em tempo real a cada usuário, elevando o nível de personalização.
O que muda? A IA generativa observa o que aconteceu no passado, aprende com esses exemplos e gera novas combinações que fazem sentido dentro desse repertório. A quântica, além de tudo isso, capta o seu nível de atenção, o estado emocional, o ambiente social e sinais comportamentais que hoje são difíceis de processar em conjunto, criando experiências mais alinhadas ao contexto de cada indivíduo. Um exemplo seria a criação de trilhas sonoras adaptadas a alguém que está voltando de uma viagem, sentindo nostalgia ou vivendo um momento de mudança. No audiovisual, em vez de apenas sugerir filmes semelhantes aos já consumidos, a tecnologia poderia recomendar histórias conectadas ao momento de vida do espectador, seja ele uma fase de transformação, descoberta ou reflexão.
Por outro lado, essa hiperpersonalização instiga questionamentos. Bia alerta para o risco de uma cultura excessivamente guiada por previsibilidade e uma entrega pela IA da média do conhecimento humano, podendo perder o nosso diferencial: aquele insight inesperado, a epifania, o outsider, o independente. A executiva alerta que a crescente influência dos algoritmos na curadoria de conteúdos pode reforçar padrões já consolidados, priorizando aquilo que tem maior previsibilidade de sucesso. Esse paradigma pode “castrar” propostas inovadoras e experimentais, a descoberta de novos talentos, narrativas e expressões criativas que desafiem o consenso e impulsionem a evolução cultural.
“Os algoritmos quânticos continuarão com a análise do passado para prever o futuro. Por isso, tendem a apontar sempre para o que já funcionou. O risco é ficarmos presos em um ciclo de repetição, investindo cada vez mais no que é familiar e reduzindo espaço para aquilo que ainda não foi testado. E reforça sobre a importância do improvável para a inovação cultural: “Os grandes avanços da arte, da música, do cinema e da comunicação muitas vezes vieram de projetos considerados apostas arriscadas. Se toda decisão passar a ser baseada em previsões de sucesso quase garantido, onde ficará o espaço para o inesperado?”, completa.
À medida que a computação quântica se aproxima da realidade comercial, a discussão deixa de ser apenas tecnológica e passa a envolver cultura, criatividade e o próprio futuro da produção de conteúdo. Se, por um lado, a capacidade de compreender comportamentos e personalizar experiências tende a alcançar níveis sem precedentes, por outro surge o desafio de preservar o espaço para a experimentação, a descoberta e o inesperado. Para especialistas como Bia Ambrogi, a evolução tecnológica deve caminhar lado a lado com mecanismos de proteção aos criadores e com a valorização daquilo que os algoritmos têm mais dificuldade de reproduzir: a intuição, a sensibilidade e a capacidade de imaginar o que ainda não existe.

