A cantora Anitta se apresentou esta semana em uma das aberturas da Copa do Mundo FIFA 2026 e trouxe de volta para o centro das atenções o seu álbum Equilibrivm, lançado em maio. Toda a estética apresentada nessa nova fase foi desenvolvida pelo Arado, instituto de pesquisa e estúdio gráfico do imaginário rural brasileiro.
Nesse contexto, sugiro uma pauta sobre os elementos traduzidos pelo Arado de religiões de matriz africana e de saberes populares brasileiros nas capas dos singles e nas animações dos clipes de Anitta.
O sócio-fundador e diretor criativo do Arado que estuda há quase uma década o tema, Luis Matuto, pode comentar como foi construída a linguagem visual dessa nova fase da cantora. Ele também pode explicar de que forma as referências interioranas, ancestrais e populares são transformadas em design contemporâneo.
ARADO: o imaginário rural que conquistou dos pequenos produtores
à Anitta e se tornou o novo design brasileiro
Com processos analógicos e narrativas que brotam da terra, da memória afetiva e da ancestralidade, instituto de pesquisa e estúdio gráfico Arado transforma o imaginário rural e das periferias das cidades em design estampado em identidades e produtos que conquistam cada vez mais os brasileiros; foi o escolhido de Anitta para a sua nova fase
Da cultura de pequenos produtores, como queijarias, cervejarias e armazéns, ao universo pop de Anitta, com a criação das capas ilustradas do novo álbum Equilibrivm, o Arado, instituto de pesquisa e estúdio gráfico do imaginário rural brasileiro, constrói uma linguagem que traduz saberes, práticas e estéticas interioranas e ancestrais em projetos contemporâneos que impactam o público e as marcas parceiras. O Arado é o novo design brasileiro.
Já venceu o Prêmio de Design Gráfico e Comunicação Visual – Menção em Design e Sustentabilidade na 54ª edição dos Prêmios ADG Laus (Espanha) e 13 prêmios no Brasil Design Award (BDA), incluindo o Destaque do Ano na 12ª edição, tanto pelo júri quanto pelo voto popular. Também teve 15 projetos selecionados para a 14ª Bienal Brasileira de Design e foi convidado a criar uma instalação para o Fuorisalone da Semana de Design de Milão 2022, intitulada Grafica Brasiliana.
Entre os trabalhos também estão a coleção Memória Interior para a Tok&Stok, a camiseta-manifesto [Re]Existir para o Greenpeace, capas, ilustrações, cartazes e embalagens para a Editora Fósforo, design de ícones para óculos Zerezes, identidade visual e rótulos para a Xeque Mate Bebidas, e o Calendário anual autoral com tiragem única que aumenta a cada ano e sempre esgota; desde 2020, a impressão passou de 600 para 15 mil exemplares. O Arado ainda comercializa produtos próprios na sua loja online e nas unidades físicas no centro histórico da cidade de Paraty (RJ) e no Mercado Central, em Belo Horizonte (MG).
Agora, suas ilustrações, que reúnem referências de religiões de matriz africana e outros saberes da cultura brasileira, estão nas capas dos singles e nas animações dos clipes de Anitta e, desde abril, vem sendo acessado por milhares de fãs da cantora no Youtube e outras plataformas digitais de música.
Neo-rural: expressões mais autênticas
Na divisa entre os estados de São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais, uma das regiões onde paira a cultura caipira, nasceu o Arado. Ali em Queluz, uma pequena cidade abraçada pelas serras da Mantiqueira e da Bocaina, Bruno Brito (de Jacareí, SP) e Luis Matuto (de Alfenas, MG) fundaram o que hoje é o principal instituto de pesquisa e estúdio gráfico do imaginário rural brasileiro. Com oito anos de estrada, o Arado é um retrato histórico e contemporâneo do interior do Brasil.
“O Arado nasceu com o objetivo de pesquisar e divulgar elementos da cultura rural brasileira. Além da influência do ambiente em que crescemos, estamos constantemente buscando histórias, livros, objetos e manifestações que nos ajude a entender esse imaginário popular. Revisitamos códigos de um Brasil que já aconteceu e ainda sobrevive para, depois, externalizá-lo nos projetos. Acreditamos que criar narrativas visuais e textuais é uma maneira de preservar esses signos na memória popular brasileira”, explica o artista plástico Bruno Brito, fundador e diretor institucional do Arado.
“A aprovação que o estúdio vem recebendo reflete uma mudança de olhar, um fenômeno maior, de reencontro com a cultura brasileira. Existe uma memória afetiva que faz com que as pessoas resgatem afetos e se encantem”, comenta o artista gráfico Luis Matuto, sócio e diretor criativo do Arado. “Existe uma identificação, seja de memória própria, dos avós, dos pais ou de um tio querido. Em algum grau, todo mundo tem ‘pé vermelho'. Sempre teremos alguém ligado à terra em nossa vida. São poucas famílias no Brasil que são exclusivamente urbanas há gerações.” Ele diz também sentir no público uma vontade de conhecer melhor o próprio país, seu passado e seu presente.
De volta às origens
O arado é uma ferramenta agrícola que tem a função de quebrar o torrão de terra e preparar o terreno para a semeadura. Ele prepara o solo antigo para o novo. “Nossa prática de pesquisa tem um papel parecido com o do arado no campo, de revirar histórias do passado, elementos que tinham uma certa tendência de desaparecer, e trazer isso de maneira atualizada, ressignificada”, descreve Bruno.
“Ao invés de nos debruçarmos no computador, existe o prazer de ter a pesquisa tátil, folhear os materiais, como se diz em Minas: ‘ver com a mão'”, acrescenta Luis. “Trazemos essa materialidade da pesquisa para os projetos. A gente preza pelo desenho à mão, pelo tempo, porque se gasta mais tempo no processo, e muito do que a gente usa para imprimir, materializar, são processos gráficos artesanais, muitas vezes considerados obsoletos no mercado.”
Gráfica vernacular: o resgate da cultura gráfica brasileira
Com a experiência do gráfico e impressor Edgard Domingos, o Arado montou uma gráfica, em Belo Horizonte, com equipamentos analógicos, muitos das décadas de 1960 e 1970, que, segundo Luis, seriam considerados sucata em outro contexto. A gráfica também é equipada com ferramentas e acessórios ligados a outros processos artesanais, como a xilogravura, a gravura em metal e a tipografia de tipos móveis.
Dessa forma, o Arado se volta para a investigação da memória gráfica brasileira e a manutenção de uma cultura de impressos ordinários, isto é, do cotidiano, como folhetos de comércio local e cartazes de festas, uma prática quase extinta com a modernização dos equipamentos. “Em vez de simular texturas digitalmente, utilizamos processos gráficos que entregam o ‘erro', o borrão, que estão fora do meu controle. Eu não preciso simular, é um processo que já vem com verdade”, afirma o diretor criativo.
A intenção do Arado não foi ocupar uma lacuna de mercado, mas sim uma lacuna de expressão, destaca Luis: “Em vez do design pasteurizado, com referências que todos costumam acessar, nos aprofundamos em referências brasileiras, por meio de vivências, pesquisas bibliográficas e materiais impressos nos séculos 19 e 20, resgatando a cultura gráfica do Brasil. Os rótulos de cachaça, por exemplo, é de uma riqueza incrível para a gente. Temos uma gramática visual própria. E as marcas começaram a enxergar valor nessa autenticidade e, agora, Anitta.”
Instituto
A iniciativa é organizada em duas frentes de trabalho, o Instituto Arado e o Estúdio Arado. O primeiro é voltado para a pesquisa e salvaguarda da cultura rural brasileira. O objetivo é registrar, compreender e divulgar estes signos por meio de projetos multidisciplinares. As frentes de atuação do Instituto são:
Ensino – Por meio de parcerias com outras instituições e marcas, o Instituto promove cursos, oficinas e visitas guiadas a exposições acerca do imaginário rural brasileiro e dos processos gráficos artesanais do Estúdio Arado.
Podcast – O programa explora o universo cultural do interior do país, sempre com boa prosa, entrevistas, informes e mural de recados. É a mistura da memória dos programas de rádio de antigamente com a divulgação de pesquisas sobre o Brasil rural.
Acervo – Fruto da pesquisa de materiais bibliográficos diversos, o Instituto dá acesso a títulos que ajudam a compreender o imaginário rural brasileiro, sobretudo caipira e caiçara. A biblioteca está em fase de digitalização, catalogação e organização e contará com uma ampla variedade de temas, como alimentação, folclore, arquitetura, história, literatura, agricultura, pecuária, sociologia e etnografia.
Correio do Arado – É a newsletter do Instituto, composta por ideias e reflexões aprofundadas, além de citações, dicas, novidades e divulgações acerca do ecossistema ao qual o Arado faz parte.
Exposições – Por meio de parcerias com outras instituições e marcas, o Arado participa de exposições e eventos culturais que materializam a pesquisa do Instituto.
Enciclopédia Rural Brasileira – O Arado está desenvolvendo a primeira enciclopédia rural brasileira, composta por verbetes das diversas áreas da vida rural no Brasil, bem como iconografias autorais.
Estúdio
Já o Estúdio Arado é onde a arte acontece, com expertise em criação para iniciativas que buscam uma essência brasileira. As pesquisas do Estúdio se apoiam em elementos do imaginário popular para conectar marcas, empresas, produtos e experiências a uma visualidade interiorana. As frentes de atuação do Estúdio são:
Identidade Visual – Projetos de construção e reformulação de marca. Uso de ferramentas estratégicas para criar os pilares de marca que guiam toda a identidade visual e o conjunto de peças gráficas que compõem o projeto.
Produção Gráfica – Produção de cartazes, rótulos, mapas, filipetas e demais impressos em geral. O Arado tem grande estima por processos analógicos de impressão e busca sempre uma visualidade genuinamente brasileira.
Produtos & Afins – Criação de embalagens, rótulos, etiquetas, objetos utilitários e peças promocionais. Desenvolvimento de produtos capazes de carregar imagens e narrativas autênticas.
Editorial & Publicações – Produção de materiais educativos impressos ou virtuais. Projetos de diagramação de livros, cartilhas e livretos; ilustrações figurativas; mapas e cartografia em geral.
Projetos Especiais – Projetos interdisciplinares, como colaboração em iniciativas rurais por meio da comunicação, da concepção de ações e do desenho de ambientes e eventos.
Sobre o Arado – Fundado em 2018, o Arado é um instituto de pesquisa e estúdio gráfico do imaginário rural brasileiro. Por meio de projetos autorais e comissionados, divulga saberes, práticas e estéticas interioranas e ancestrais que ajudam a compreender a formação cultural do Brasil. É vencedor do prêmio de Design Gráfico dos Prêmios ADG Laus (54ª edição), da Espanha, e de 13 prêmios no Brasil Design Award, incluindo Destaque do Ano (12ª edição). Teve 15 projetos na 14ª Bienal Brasileira de Design e uma instalação no Fuorisalone da Semana de Design de Milão 2022. Em 2026, desenvolveu a identidade gráfica do álbum Equilibrivm da Anitta. Saiba mais em: www.arado.info.

