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Bem-vindos a AVENTURAS EM DISCOLECIONISMO

By Conteúdo Digital16 outubro, 2026Nenhum comentário9 Mins Read
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Bem-vindos a AVENTURAS EM DISCOLECIONISMO, uma nova série de posts na qual abordarei uma paixão que define minha vida: colecionar CDs e discos de vinil. No texto inaugural, uma reflexão sobre o necessário momento de desapegar da coleção.

Billy Wilder (1906-2002) é meu diretor de cinema favorito. Todo mundo (quase todo mundo, vai) sabe que o austríaco assinou algumas das maiores obras-primas da história de Hollywood. Crepúsculo dos Deuses, Se Meu Apartamento Falasse, Quanto Mais Quente Melhor, O Pecado Mora ao Lado, Farrapo Humano, et. al. O que muito menos gente sabe, imagino, é que Wilder também era um ávido colecionador de arte, focado em esculturas e telas dos períodos moderno e contemporâneo. Começou a montar seu acervo ainda bem jovem, antes de se firmar como cineasta, vivendo em Viena e Berlim na década de 1930, e orgulhava-se de ter sido um dos primeiros a valorizar pintores como Egon Schiele e Oskar Kokoschka.

Pois em 1989, aos 83 anos, Wilder resolveu vender a maior parte de sua coleção, que àquela altura já ocupava um espaço desproporcional em seu (enorme) apartamento em Beverly Hills. O diretor catou obras de Picasso, Klimt, Renoir, Miró, Giacometti, Balthus e muitos outros e passou tudo adiante com o intermédio da casa de leilões Christie’s. Após o último bater do martelo, ele estava US$ 32 milhões mais rico.

“Tomei a grande decisão, a decisão de vender, e depois fui tomando as pequenas decisões”, contou Wilder à biógrafa Charlotte Chandler. “Escolher cada uma das obras a ir embora. Foi quando tudo acabou para mim: quando tomei aquelas decisões, não na noite do leilão. Naquela noite, eu já havia me despedido dos meus velhos amigos. Sentia que eles não me pertenciam mais.” Em 2000 — dois anos antes de morrer — Wilder ainda faria um segundo leilão, desfazendo-se de mais Picassos, Hockneys e Lichtensteins. “As grandes pinturas se foram em 1989. Essas são supérfluas”, minimizou o próprio colecionador.

Levo uma vida muito, muito distante da vida que Billy Wilder levou, mas entendo perfeitamente a frase dele que abre este textão. Coleciono discos de vinil desde os 12 anos, comprei meu primeiro CD aos 18, e até hoje não parei de adquirir ambos os formatos. Vi os LPs saírem de moda, no começo dos anos 1990, e continuei comprando-os. Vi os CDs caírem de preço e a bonança das primeiras lojas online, na época áurea do Plano Real (R$ 1 = US$ 1). A acumulação de títulos ganhou um boost nos anos em que trabalhei como crítico e repórter de música, quando recebia literais pilhas de CDs todas as semanas. O vinil voltou à moda e encareceu de novo; os CDs foram desprezados e quase desapareceram. E eu não parei de adquirir ambos os formatos.

A quantidade de discos que perdi desde 1986 pode ser contada nos dedos. Tive alguns roubados, aqui e ali¹, mas acabei recomprando os realmente importantes. Então, 40 anos depois, entre LPs, singles 12” e 7”, CDs e boxsets, possuo algo perto de 5 mil exemplares — uns 1.500 vinis e outros 3.500 CDs. Meu perfil na plataforma de colecionadores Discogs indica um total de 4.881,² mas tenho uma quantidade razoável de títulos que ainda não estão cadastrados lá. Então, pra arredondar, fecho em 5.000. (Isso no momento em que digito, 08/10/2026).

Negócio é que o Discogs também apresenta uma estimativa de valor das coleções catalogadas. É uma estimativa generosa, baseada nos valores médios pelos quais os discos são vendidos por meio da própria plataforma (na qual se acha praticamente qualquer LP ou CD já feito, mas a preços em geral bem salgados). Volta e meia me pego classificando minha coleção por valores. Se aparecesse alguém disposto a arrematar toda a discarada pelo valor mais alto indicado no Discogs, eu lucraria o suficiente para comprar um studio loft em Botafogo ou no Flamengo. Ou uns 12 mil pacotes de Paçoquita.

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E aí chegamos ao que chamo de o dilema de Billy Wilder. Não estou sugerindo que tenho o equivalente, em discos, a um quadro de Picasso ou uma escultura de Giacometti. Mas uma cópia do LP Raw Power dos Stooges, prensagem original britânica CBS, 1973 — exatamente igual à minha — já foi negociada no Discogs por R$ 2.835. Um LP ao vivo do Bauhaus que me custou R$ 100, chegou a atingir R$ 1.317. Uma prosaica caixinha de CDs mono dos Beatles como a que eu tenho foi comercializada por mais de R$ 1.500. De novo: não há garantia alguma de que eu, se pusesse esses discos à venda, conseguiria realmente vendê-los a esses preços. Ainda assim, dá o que pensar…

É quando a opção pelo desapego ganha contorno de questão existencial. Minha vida, em grande parte, foi moldada por essa coleção de discos. Iniciei-a em uma época na qual as pessoas tinham que comprar LPs e CDs para terem acesso ilimitado a suas músicas favoritas. Isso não é mais uma realidade há pelo menos um quarto de século. O Napster e o MP3 libertaram o som de seus suportes físicos. Gravadores de CD caseiros permitiram a reprodução de discos antes raros (e caros). E a universalização do streaming transformou de vez o cenário. Hoje as pessoas “licenciam” o álbum que querem ouvir por meio de um pagamento a uma plataforma, em vez de adquirir um exemplar próprio. A partir de R$ 13 (para estudantes), o Spotify dá acesso a mais música do que qualquer um poderia ouvir (ou comprar) em toda a sua vida.

Segundo o Discogs, o título menos valorizado da minha coleção é essa coletânea do Elvis Costello. Uma cópia já foi comercializada por meros R$ 0,05! Que vacilo, esse disco é bonzão!

Além de não precisar mais dos discos para ouvir a música, é preciso encarar a finitude carnal. Ninguém está ficando mais jovem e eu muito menos. Detesto a ideia de morrer de repente e largar minha amada coleção por aí. Minha filha tem zero interesse por meus discos e capacidade ainda menor de avaliar quanto eles valem monetariamente. Se eu mesmo não der um destino para a discarada enquanto tenho tempo (e saúde para gastar o valor arrecadado), tenho certeza de que ninguém vai dar.³

Voltemos então ao dilema de Billy Wilder. O diretor austríaco tinha evidente apego à sua coleção. Chamava os itens mais preciosos de “amigos”. É o mesmo que sinto por (boa parte dos) meus discos. Consigo lembrar onde e quando comprei cada um deles, como a primeira audição me tocou, por quanto tempo procurei aquele título específico até achar.

Meu Raw Power foi achado em uma banquinha de rua, durante um passeio por Camden Town, o bairro londrino de Amy Winehouse. Custou 15 libras. O LP do Bauhaus eu comprei na feira de antiguidades da Praça XV, depois de pechinchar com o vendedor. O box dos Beatles me obrigou a “dar um perdido” no trabalho num dia de semana, pois precisei ir a uma agência dos Correios em São Gonçalo para resgata-la, enfrentando engarrafamentos e uma longa fila.

Esses discos são a minha biografia, como a arte colecionada por Wilder era a dele. Só que — mesmo sem precisar do dinheiro⁴ — ele um dia desapegou. Gostaria de saber como ele calculou o momento exato para desapegar dos “amigos”. É um cálculo que todo colecionador sério precisa fazer. O dilema está em conseguir desapegar, mesmo reconhecendo que o colecionismo é parte básica de nossa personalidade.

Há um caráter melancólico na decisão. Paramos de comprar e começamos a vender quando vislumbramos, ainda que distante, nossa finitude. É uma maneira de “por as coisas em ordem” antes do inevitável. Será que Billy se sentiu menos vivo ao parar de acumular peças de arte? Eu, que não tenho muita esperança de chegar aos 83 anos (nem vontade de, para ser sincero), preciso resolver esse dilema em breve.

Menos de um mês depois do leilão de novembro de 1989, o prédio no qual Billy Wilder e sua mulher Audrey moravam pegou fogo. Eles escaparam ilesos, e apenas uma vítima fatal foi registrada (uma velhinha de 89 anos que aspirou fumaça demais), mas o calor e a fuligem causaram muitos danos materiais. Incluindo ao que sobrou da coleção de arte de Wilder.

Há uma lição aí. Só não sei bem qual.

Na época da faculdade, quando eu era DJ profissional, fui assaltado e me levaram uma mochila cheia de CDs. (Hoje os ladrões certamente a dispensariam.) E em 2002, meu apartamento no bairro carioca do Riachuelo foi arrombado. O ladrão levou um videocassete LG de 5 cabeças (eu amava aquele aparelho) e… fez uma limpa na letra “S” da minha CDteca, levando uns 50 títulos de Smiths, Sonic Youth, Superchunk, Smashing Pumpkins etc. Se o cara roubou por preferência pessoal, pelo menos tem meu respeito.

2

O Discogs tem duas utilidades: catalogar coleções e comprar/vender discos. Eu comecei a usar a plataforma por um terceiro motivo. Já estava cansado de comprar álbuns repetidos, especialmente em CD (que são mais baratos e muitas vezes adquiridos por impulso, aos lotes). Em vez de quebrar a cabeça para lembrar se tenho ou não aquele disco específico, saco o celular e verifico na coleção online.

3

Há uns anos, passei por um camelô vendendo, estendidos na calçada, um bom lote de CDs de Britpop. Pulp, Supergrass, Manic Street Preachers, tudo a 3 por R$ 10. Catei uma meia-dúzia e saí assobiando. Momentos depois, um pensamento me assaltou com tamanha força que até parei de caminhar. “Algum indie véio da vizinhança morreu, e os CDs dele foram jogados fora. Daqui a pouco é a minha vez”.

4

Precisar PRECISAR do dinheiro, ele obviamente não precisava. Mas depois de leiloar suas obras de arte, Wilder trocadilhou: “I didn’t get rich making pictures. I got rich collecting pictures.”


Obrigado por me aturar em mais uma plataforma. Curtiu? Aperta o botão laranja aí embaixo para compartilhar este post. Não curtiu? Manda um comentário com ponderações

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