by Lucas Yamashita
ADE 2026 completa 30 anos e reafirma
Amsterdã como capital mundial da música
eletrônica.
Entre conferências, networking, clubes, grandes arenas e experiências audiovisuais, a edição comemorativa mostrou a força do Amsterdam Dance Event, mas também expôs desafios de acesso e segurança que precisam ser enfrentados.
Durante cinco dias e cinco noites, Amsterdã voltou a respirar música eletrônica. De 21 a 25 de outubro, a edição comemorativa de 30 anos do Amsterdam Dance Event reuniu mais de 3.600 artistas em mais de 1.300 eventos distribuídos por mais de 300 espaços, segundo o programa oficial.
O balanço posterior apontou aproximadamente 600 mil visitantes, igualando o recorde da edição anterior. Os números ajudam a dimensionar o evento, mas não explicam completamente sua importância.
O ADE não é apenas um festival, tampouco somente uma conferência. É uma rede que conecta música, tecnologia, negócios, arte e vida noturna em escala urbana. Durante aquela semana, hotéis viram centros de reuniões, escritórios recebem apresentações, gravadoras abrem suas portas e
praticamente todo tipo de espaço, de clubes pequenos a um estádio para 40 mil pessoas, pode fazer parte da programação.
De 1996 a 2026
Quando surgiu, em 1996, o ADE reunia cerca de 300 profissionais e ocupava apenas três espaços noturnos. Três décadas depois, tornou-se uma das plataformas mais influentes da indústria eletrônica mundial.
A evolução não aconteceu apenas em volume. A música eletrônica deixou de ocupar um território restrito a clubes e cenas específicas para se tornar uma força cultural, tecnológica e econômica global. O próprio ADE acompanhou essa transformação ao expandir sua atuação para áreas como desenvolvimento de artistas, sustentabilidade, inteligência artificial, direitos autorais, inovação e cultura noturna.
A edição de 2026 utilizou seu aniversário para olhar simultaneamente para trás e para o futuro.
Jean-Michel Jarre foi escolhido como convidado de honra, celebrando também os 50 anos de Oxygène. Sua presença conectou o experimentalismo dos primeiros sintetizadores às discussões
atuais sobre algoritmos, máquinas e inteligência artificial.

Dois eventos dentro do mesmo ADE
Durante o dia, a cobertura da DJSound acompanhou apresentações e encontros profissionais. No escritório da Apple em Amsterdã, o Apple Music Product Roadshow revelou uma estratégia que
aproxima streaming, DJing, áudio espacial, transmissões ao vivo e remuneração de direitos.


Na Armada Music, a edição especial ASOT 1300 combinou rádio, entrevistas, apresentações e uma performance de Armin van Buuren dentro da própria sede da gravadora.
No Rosewood Amsterdam, a DJSound Espanha, através de Javier Gomez, participou do Meet the Media, encontro que reuniu veículos especializados de diferentes países. Para a marca, foi uma oportunidade de estabelecer novas conexões e apresentar sua primeira franquia internacional dentro
de um dos ambientes profissionais mais relevantes da música eletrônica.
À noite, o mapa mudava completamente. AFAS Live, Ziggo Dome, Johan Cruijff ArenA,
Sugarfactory, De Kromhouthal, Escape Club e dezenas de outros espaços recebiam programações que se estendiam até a manhã seguinte.
Essa convivência entre negócios e pista é a principal diferença do ADE. Uma conversa iniciada em um painel pode continuar em um showcase; um artista descoberto em uma apresentação pequena pode aparecer, anos depois, em uma arena; e profissionais que competem durante o restante do ano
se encontram na mesma cidade para trocar ideias e iniciar novos projetos.
Os grandes momentos da edição
O concerto de Jean-Michel Jarre no AFAS Live foi um dos eventos mais simbólicos. Painéis,
projeções, máquinas e a participação surpresa de Armin van Buuren transformaram a apresentação em uma ligação direta entre pioneirismo e música eletrônica contemporânea.
A celebração dos dez anos da STMPD RCRDS, com Martin Garrix, mostrou a força de uma
gravadora que nasceu em Amsterdã e se tornou uma plataforma global. KI/KI, com sua
apresentação de cinco horas no Ziggo Dome, representou a ascensão de uma nova geração ligada ao techno, acid e trance.
No sábado, Joris Voorn comandou uma das experiências mais consistentes da Awakenings na Sugarfactory, enquanto o AMF transformou a Johan Cruijff ArenA em um enorme clube. O Monolith de David Guetta, que retornou ao evento depois de seis anos, foi o principal espetáculo
visual da noite. Michael Bibi, no The Loft, e HALŌ, no Escape Club, conduziram o encerramento no domingo.
Depois de uma semana de grandes produções, a despedida ao som de “One More Time” resumiu o sentimento coletivo de quem ainda guardava energia para os últimos minutos do ADE.
O problema do acesso com o Pro Pass
Apesar do saldo positivo, a edição também deixou questões importantes a serem revistas. Uma delas foi o funcionamento do ADE Pro Pass para as festas.
O próprio regulamento informa que o passe dá acesso aos eventos oficiais apenas enquanto houver capacidade reservada para seus portadores. A entrada não é garantida, e a recomendação para os eventos mais disputados é chegar cedo ou comprar um ingresso individual. Em algumas produções
especiais, como o concerto de Jean-Michel Jarre, foi necessário participar previamente de um sorteio.
A limitação de capacidade é compreensível. O principal problema é a falta de informação
suficientemente clara e atualizada durante os deslocamentos.
Em uma cidade tomada por eventos simultâneos, atravessar Amsterdã para descobrir na porta que a cota do Pro Pass está encerrada representa perda de tempo, dinheiro e oportunidades.
Para as próximas edições, o aplicativo poderia informar em tempo real se a capacidade destinada ao passe continua disponível, se o espaço está temporariamente fechado ou se existe previsão de novas entradas.
Uma lista de espera digital, alertas de lotação e reservas temporárias, válidas apenas durante o deslocamento do usuário, também poderiam reduzir frustrações. O passe não precisa garantir acesso irrestrito para oferecer uma experiência mais transparente e eficiente.
Segurança precisa acompanhar o crescimento
Outro ponto de atenção foi a segurança. Durante a elrow, no De Kromhouthal, episódios
envolvendo spray de pimenta provocaram correria, mal-estar e o esvaziamento de parte da pista.
Posteriormente, outros casos foram noticiados em diferentes festas do ADE. A Resident Advisor relatou pelo menos quatro ocorrências semelhantes, algumas associadas a tentativas de roubo de
joias e outros objetos pessoais.
Ainda que não tenham sido registrados feridos graves, a repetição demonstra que o problema exige uma resposta coordenada.
Revistas de entrada mais consistentes, treinamento das equipes, comunicação rápida dentro dos espaços e compartilhamento de informações entre produtores podem ajudar a reduzir os riscos.
A magia do ADE depende da sensação de liberdade que existe em suas pistas. Sem segurança, essa liberdade rapidamente se transforma em vulnerabilidade.
Um encontro que continua indispensável
Mesmo com pontos a melhorar, o ADE 2026 entregou aquilo que se espera de uma edição histórica.
Foram cinco dias de conexões com artistas, produtores, gravadoras, empresas de tecnologia, veículos de comunicação e outros agentes fundamentais do mercado.
A programação mostrou a amplitude da música eletrônica atual: do progressive house ao hard techno, do trance ao melodic techno, de apresentações intimistas a estruturas monumentais de estádio. Também mostrou que a cultura eletrônica vai muito além da figura do DJ. Ela depende de
engenheiros, técnicos, designers, jornalistas, desenvolvedores, promotores, equipes de segurança e comunidades inteiras.
Aos 30 anos, o Amsterdam Dance Event permanece relevante porque não funciona apenas como uma sequência de festas. Ele é o lugar onde a indústria se observa, celebra sua história, discute seus problemas e testa possibilidades para o futuro.
O desafio para os próximos anos será preservar essa escala sem perder transparência, segurança e qualidade de experiência. Se conseguir avançar nesses pontos, Amsterdã continuará sendo, por muito tempo, o principal ponto de encontro da música eletrônica mundial.

