by Lucas Yamashita
Por dentro do ADE 2026: tecnologia, direitos e conexões que apontam para o futuro da música eletrônica.
Durante cinco dias, Amsterdã voltou a ocupar o centro da indústria mundial da música
eletrônica. Se, à noite, o Amsterdam Dance Event transformou clubes, arenas e espaços culturais em pistas de dança, durante o dia o encontro revelou sua outra dimensão: a de uma ampla plataforma de inovação, relacionamento e desenvolvimento de negócios.
Na edição que celebrou os 30 anos do ADE, a DJSound acompanhou apresentações,
encontros profissionais e iniciativas que ajudaram a compreender algumas das principais mudanças em curso no setor. Inteligência artificial, streaming, direitos autorais, novas ferramentas para DJs, experiências imersivas e o papel da mídia estiveram entre os assuntos mais relevantes.
Apple Music transforma som em identidade
A programação começou na quarta-feira, 21 de outubro, com uma visita ao escritório da
Apple em Amsterdã para o Apple Music Product Roadshow. A apresentação revelou como a plataforma pretende ampliar sua atuação para além do streaming tradicional, aproximando ouvintes, artistas, DJs, clubes, festivais e desenvolvedores de tecnologia.
Uma das novidades de maior impacto foi a nova identidade da Apple Music, criada sob o
conceito “Made by Sound”. Em colaboração com Fred again.. e a NEST Acoustics, a empresa desenvolveu uma assinatura sonora cujas frequências também deram origem
aos movimentos da nova linguagem visual.
O processo partiu da decomposição de notas individuais e da reprodução dessas frequências em uma estrutura capaz de gerar movimentos em uma superfície líquida. Em vez de apenas criar imagens inspiradas pela música, o projeto permitiu que o próprio som moldasse a identidade visual da plataforma.
A escolha sintetiza uma mensagem importante: artistas e música continuam no centro do posicionamento da Apple Music, mesmo em um momento de forte avanço da inteligência artificial e de outras tecnologias automatizadas.
AutoMix, letras e novas formas de descoberta
Entre as funcionalidades apresentadas, o AutoMix ganhou destaque. O recurso analisa características musicais para determinar o momento mais adequado para passar de uma
faixa a outra, utilizando técnicas como beatmatching e time-stretching.
Com o iOS 27, o AutoMix passa a incorporar possibilidades como looping, reverb e delay, criando transições mais elaboradas. A função também está sendo expandida para tvOS e HomePod.
Embora não substitua a leitura de pista, a seleção musical e a criatividade de um DJ, a
ferramenta aproxima milhões de ouvintes de alguns princípios básicos da mixagem. Para gêneros construídos sobre continuidade rítmica, como house e techno, isso pode mudar consideravelmente a experiência de ouvir playlists.
A Apple também apresentou avanços em Lyrics Translation e Lyrics Pronunciation. A
primeira ferramenta utiliza aprendizado de máquina, com revisão de especialistas em
idiomas, para traduzir letras sem perder contexto cultural, intenção e carga emocional. A segunda oferece guias fonéticos para ajudar o público a acompanhar músicas em
idiomas que não domina.
As traduções estavam disponíveis em 11 combinações linguísticas selecionadas,
enquanto o recurso de pronúncia contemplava 13 combinações. É um movimento
importante para a circulação internacional de repertórios e para a descoberta de artistas
que cantam fora do eixo anglófono.
Também foram anunciadas páginas de artistas mais personalizáveis, com maior controle sobre identidade visual, destaques de catálogo e lançamentos, além de uma experiência ampliada para concertos. O público poderá encontrar apresentações por cidade, data ou gênero, acessar a venda de ingressos, consultar setlists, salvar datas no calendário e localizar os espaços pelo Maps.
Outras novidades incluíram a transferência de músicas, álbuns e playlists de serviços
concorrentes (realizada por uma solução terceirizada) e a chegada do áudio Hi-Res
Lossless ao Apple TV 4K para usuários com equipamentos externos compatíveis.

Apple Music amplia sua presença na cultura DJ
Para o mercado eletrônico, a parte mais estratégica da apresentação foi a expansão do ecossistema voltado aos DJs.
A programação de Dance e Electronic combina curadoria humana, programas de rádio e DJ mixes. A Apple Music Club funciona como uma janela pública para esse universo,
com programação contínua, enquanto os assinantes têm acesso a páginas especializadas, seleções editoriais e catálogos ampliados de sets.
Um dos desafios históricos dos DJ mixes nas plataformas digitais é identificar todas as
faixas utilizadas e remunerar corretamente artistas, produtores, selos, editoras e demais titulares. A Apple Music emprega tecnologia do Shazam para reconhecer as músicas
presentes nas sessões — inclusive, em determinadas situações, faixas ainda não
lançadas — e viabilizar a distribuição de direitos.
Essa infraestrutura permite que DJs, clubes, festivais e promotores publiquem novos sets com maior frequência e com mecanismos mais claros de identificação e compensação. É uma solução relevante para um formato que sempre teve enorme valor cultural, mas encontrou dificuldades para se adaptar economicamente ao streaming.
A plataforma também continua investindo em Spatial Audio para sessões gravadas ou
adaptadas ao formato imersivo. Entre os exemplos apresentados estavam performances de Jeff Mills no Liquid Room, Sonny Fodera no The Warehouse Project e Fred again.. em Dublin. Já o Club Live leva sets e festivais ao público em tempo real. Depois de transmissões ligadas a eventos como EDC e Tomorrowland, a proposta deverá alcançar novos espaços e programações internacionais.
Outra frente importante é o DJ with Apple Music. As integrações com Serato DJ,
VirtualDJ e edjing Mix permitem que assinantes acessem o catálogo da plataforma dentro de ambientes de mixagem. Isso aproxima streaming, preparação de repertório e prática de DJing, especialmente em dispositivos móveis.

ASOT 1300: rádio, entrevistas e performance no mesmo espaço
Na quinta-feira, 22 de outubro, a programação continuou na sede da Armada Music. A
gravadora abriu suas instalações para dois dias de atividades durante o ADE, incluindo uma edição especial do A State of Trance.
O ASOT 1300 reuniu convidados e performances ao longo do dia, além de uma entrevista com Jean-Michel Jarre. A presença do pioneiro francês, convidado de honra do ADE 2026, reforçou uma das principais conversas da semana: como conciliar o legado da música eletrônica com inteligência artificial, novos instrumentos e formatos emergentes de produção.
Depois da transmissão, Armin van Buuren apresentou uma performance especial no The
Club, dentro da sede da Armada. O formato resumiu bem o espírito do ADE: rádio,
conteúdo, relacionamento profissional e pista de dança convivendo sob o mesmo teto.
A programação oficial da Armada descreveu a edição como uma combinação de ASOT, showcases intimistas, atividades práticas e encontros de comunidade.
Javier Gomez representa a DJSound no Meet the Media
Um dos momentos mais importantes da participação da DJSound no ADE 2026 foi o
Meet the Media, realizado na quinta-feira, 22 de outubro, no Rosewood Amsterdam.
Javier Gomez foi representar a DJSound Espanha na sessão, colocando a primeira
franquia internacional da marca ao lado de alguns dos principais veículos de música,
entretenimento e negócios do mundo.
A participação teve um significado que ultrapassou a cobertura jornalística do evento. Em seu primeiro ano de atuação, a DJSound Espanha foi reconhecida como parte do
ecossistema internacional de mídia especializada reunido pelo ADE. A presença de Javier demonstrou o avanço da estratégia de internacionalização da marca e sua capacidade de estabelecer pontes entre diferentes mercados.
Diferentemente de um painel convencional, tratou-se de uma sessão fechada e previamente organizada para conectar veículos de comunicação e profissionais da indústria em conversas individuais.
O encontro começou com uma introdução dos profissionais convidados e seguiu com
rodadas de networking. Javier apresentou a DJSound, sua atuação editorial e o processo
de expansão internacional da marca, além de participar de conversas diretas com jornalistas, editores, executivos, produtores de rádio, criadores de conteúdo e representantes comerciais.
A sessão reuniu profissionais ligados a Mixmag, DJ Mag Italia, VICE, Capital Dance, NPO
3FM, Sunshine Live, Mixmag Brasil, Crack Magazine, IQ Magazine, SLAM!, SceneNoise,
Drop Times e outros veículos.
Para Javier, a sessão representou a oportunidade de apresentar a DJSound não apenas como um site de notícias, mas como uma plataforma especializada com potencial para conectar mercados, desenvolver projetos editoriais internacionais e ampliar a visibilidade de artistas, marcas e iniciativas da música eletrônica.
Para a DJSound, o encontro abriu possibilidades de colaboração com veículos de outros países, intercâmbio de conteúdo, entrevistas, coberturas conjuntas e novos
relacionamentos com profissionais que atuam diretamente na circulação global da música eletrônica.
Mais do que uma oportunidade de apresentar projetos, a dinâmica evidenciou como a
mídia especializada continua exercendo um papel fundamental na descoberta de artistas, na contextualização de tendências e na ligação entre mercados locais e a indústria
internacional.
Tecnologia só faz sentido quando fortalece a música
As conferências e encontros acompanhados durante o ADE 2026 apontaram para uma
indústria em transformação, mas também deixaram claro que tecnologia, isoladamente,
não resolve todos os desafios.
Ferramentas de inteligência artificial podem melhorar traduções, recomendações e
transições. Sistemas de reconhecimento podem tornar a remuneração de DJ mixes mais eficiente. Transmissões e áudio espacial podem levar performances para além das
fronteiras físicas de um clube. Nada disso, porém, elimina a importância da curadoria, da
autoria, do contexto cultural e das relações humanas.
Esse talvez tenha sido o principal aprendizado da edição de 30 anos: o futuro da música
eletrônica não será construído apenas por algoritmos ou novas plataformas. Ele
continuará dependendo de artistas, profissionais, comunidades e espaços capazes de transformar tecnologia em cultura.

